Cientistas encontraram células sanguíneas em um fóssil de dinossauro, o Aratasaurus museunacionali, que viveu há cerca de 115 milhões de anos onde hoje é a Chapada do Araripe. De acordo com a pesquisa, os glóbulos vermelhos apresentaram uma preservação incomum, já que a degradação e a contaminação dos tecidos e das moléculas costumam ser rápidas.
O sítio arqueológico, a Formação Romualdo, está localizado em uma tríplice divisa entre os estados do Pernambuco, Ceará e Piauí.
Segundo a pesquisa, o animal era um dinossauro terópode, um grupo de dinossauros bípedes, com ossos ocos e pneumáticos, ou seja, com cavidades internas preenchidas por ar. A análise dos pesquisadores identificou no fóssil uma molécula essencial do sangue, a heme B, e produtos de redução da heme B, localizados nos canais vasculares do animal.
A detecção das biomoléculas nos fósseis funciona do isolamento molecular, a partir da análise dos extratos orgânicos do tecido fóssil, que pode identificar moléculas biomarcadoras específicas, fazendo uma comparação entre o tempo de retenção, espectros de absorção UV-Vis e espectros de massa com padrões modernos autênticos.
Detectar moléculas intactas derivadas do heme em glóbulos vermelhos de 115 milhões de anos é surpreendente: esta é realmente uma descoberta histórica. Isso não apenas amplia o registro fóssil conhecido do sangue, mas também oferece uma janela molecular direta para a fisiologia de animais extintos há muito tempo, para que possamos entendê-los melhor e ao mundo em que viviam.
O estudo foi publicado, nesta segunda-feira (2), na revista National Academy of Sciences e pode ser acessado neste link.
Apesar de a descoberta envolver um fóssil brasileiro, a pesquisa foi liderada pela australiana Kliti Grice, professora da Universidade Curtin. Quatro brasileiros participaram da pesquisa:
- Renan Bantim, Universidade Regional do Cariri
- Antônio Saraiva, Universidade Regional do Cariri
- Juliana Sayão, Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Museu Nacional
- Alexander Kellner, Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Museu Nacional
Após o isolamento e identificação das moléculas, os cientistas realizam uma técnica para detectar composições não destrutivas na estrutura e escala micrométrica em lâminas delgadas de fósseis.
Depois, um mapeamento microanatômico é realizado e então a verificação e o controle de contaminação são feitos para comprovar que as biomoléculas são originais (endógenas) e não resultado de contaminação recente ou artefatos minerais.
“Essas descobertas desafiam antigas suposições de que certas biomoléculas, como a hemoglobina, não podem sobreviver em tempos geológicos extensos”, ressalta a professora Grice.
Segundo os autores, a análise de biomoléculas derivadas do sangue em fósseis pode fornecer informações sobre a fisiologia e a biologia evolutiva da vida antiga.
A descoberta dos pesquisadores aponta que os glóbulos vermelhos do dinossauro brasileiro são diferentes dos presentes em aves modernas em diversos aspectos, como a forma, o tamanho, a área da superfície total e na adaptação evolutiva.
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Explicando o passado
Enquanto os glóbulos vermelhos de aves modernas são visivelmente alongados, os pesquisadores perceberam que os glóbulos do Aratasaurus são quase esféricos.
Além disso, as células do dinossauro possuem, em média, 22,97 µm (micrômetros) de comprimento e 19,54 µm de largura, enquanto as das aves modernas teriam aproximadamente 7,5 a 13 µm (micrômetros) de largura, não sendo tão longas como as do dinossauro.
Há também uma diferença entre a adaptação evolutiva entre os dois animais. Enquanto o Aratasaurus não descendia de um ancestral capaz de voar, o que permitiria dimensões maiores dos glóbulos vermelhos, as aves modernas descendem de animais que viveram um processo extenso de miniaturização corporal e adaptação para voar, consequentemente reduzindo o tamanho dos glóbulos vermelhos para terem mais eficiência ao transportarem oxigênio.
*Sob supervisão de Thiago Félix
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por laurynamaral.
