Truta amarela supera linhagem selvagem no peso de abate
Peixe fruto do cruzamento com linhagem albina atinge 300g no longo prazo, ultrapassando os 237g da variedade comum
Reprodução/Canva
Agência Fapesp
1.nov.2026 (domingo) – 9h00
Priorize o Poder no Google
Na criação de peixes, a regra geral é que os animais que mantêm a coloração original da espécie (linhagem selvagem) sejam mais robustos e cresçam mais do que variantes com mutações genéticas, como o albinismo, que muitas vezes prejudicam o desenvolvimento. No entanto, um experimento do Instituto de Pesca com trutas-arco-íris (Oncorhynchus mykiss) revelou uma exceção a esse padrão biológico.
Os pesquisadores descobriram que a truta amarela –fruto do cruzamento com a linhagem albina– ultrapassa no longo prazo o peso da linhagem selvagem, que é parda com pintas pretas. Embora essa variedade comum do peixe cresça mais rápido nos primeiros meses de vida, a amarela acelera na reta final e atinge cerca de 300 gramas no ponto de abate comercial, superando com folga os 237 gramas da truta selvagem e os meros 145 gramas da variante albina (totalmente branca).
Esse achado, que abre novas possibilidades comerciais para o cultivo da espécie, faz parte de um estudo apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e publicado na revista Aquaculture Reports.
“O desempenho do fenótipo amarelo foi uma surpresa, porque o selvagem é normalmente o que cresce mais. Os animais albinos geralmente têm uma menor eficiência na conversão de alimento em músculo e em outros parâmetros. A selvagem até cresceu mais no início do experimento, mas o crescimento desacelerou depois de 120 dias”, conta Vinicius Vasconcelos Silva, 1º autor do estudo, realizado durante seu doutorado no Instituto de Pesca e na Fzea-USPP (Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo).
O estudo integra o projeto “Avaliação do crescimento muscular de linhagens de trutas-arco-íris”, apoiado pela Fapesp e coordenado por Vander Bruno dos Santos, pesquisador do Instituto de Pesca.
“A diferença na coloração tem potencial para aquicultura, podendo gerar diferentes produtos a partir da mesma espécie, mas principalmente para a pesca esportiva. Existe uma demanda por peixes diferentes em estabelecimentos de pesque e pague”, afirma Santos.
Os experimentos foram realizados no Núcleo Regional de Pesquisa em Salmonicultura Dr. Ascânio de Faria, unidade do Instituto de Pesca mais adequada para o cultivo de espécies de clima temperado.
Experimento
Os animais foram criados em tanques com a mesma temperatura, qualidade de água e alimentação. Eles foram pesados aos 60, 120, 180 e 270 dias. Nessa reta final, as trutas costumam atingir o tamanho padrão de consumo no Brasil (cerca de 250 gramas), ideal para uma porção individual.
Todos os filhotes (alevinos) avaliados nasceram do cruzamento de 5 machos brancos com 80 fêmeas comuns (pardas com pintas pretas). A reprodução foi feita em laboratório, misturando manualmente os óvulos e o esperma.
No total, nasceram cerca de 8.200 peixes, divididos de forma equilibrada entre as cores branca, amarela, azul-cobalto e a comum. Para as avaliações de peso, os cientistas selecionavam 90 animais de cada cor.
Até o 4º mês de vida, a truta comum foi a que ganhou mais peso, chegando a 54 gramas em média, contra apenas 33 gramas da branca (que teve o pior resultado em todas as fases). No entanto, aos 6 meses, o jogo virou: enquanto a comum estava com 119 gramas, a amarela assumiu a ponta com 123 gramas, diferença que se ampliou até o final da pesquisa.
O papel dos genes de cor
As causas para o baixo desenvolvimento das trutas brancas ainda são investigadas, mas estudos anteriores já indicaram algumas hipóteses. Um estudo apoiado pela Fapesp e publicado em 2020 na revista “Plos One” mostrou que as trutas azuis e brancas têm a hipófise menor. Essa glândula é o “motor” que regula o metabolismo e o crescimento.
“Outros trabalhos sugerem que os genes ligados à cor podem afetar negativamente tanto o crescimento quanto as defesas do organismo”, lembra Santos.
Segundo essas pesquisas, a falta de melanina na pele (característica do albinismo) prejudica a ação de um hormônio envolvido não só na cor, mas também na inflamação, na fome e na energia. Isso afeta o apetite, a resposta ao estresse e a imunidade do peixe.
Superar essas limitações genéticas e produtivas é essencial para expandir o mercado nacional de trutas, que hoje atende a um público fiel com uma produção de cerca de 1,6 mil toneladas anuais. Para agregar valor e atrair novos consumidores, os pesquisadores também apostam no potencial da “truta salmonada” – que ganha cor e propriedades nutricionais parecidas com as do salmão por meio de uma ração especial. O grupo do Instituto de Pesca trabalha agora para aumentar o valor nutricional da espécie.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp em 23 de outubro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.
o Poder360 integra o
Conteúdo reproduzido originalmente em: Poder 360 por Poder360 · Agência Fapesp.
