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Como vazamentos de petróleo podem afetar água potável nos Emirados Árabes

Um vazamento de petróleo na costa dos Emirados Árabes Unidos, que levou a restrições temporárias à pesca e ao acesso a várias praias, gerou preocupações quanto ao risco de contaminação ambiental e ao possível impacto em estações de dessalinização.

Quais são as principais preocupações ambientais?

O vazamento provém de uma embarcação — identificada por fontes do setor de navegação como o navio-petroleiro “Gem No. 2” — que, segundo essas fontes, foi atingida por um projétil não identificado no mês passado, a 24 quilômetros a oeste de Al Jazeera, no emirado de Ras Al Khaimah.

Moradores relataram, por meio de redes sociais, a presença de odores estranhos; contudo, as autoridades informaram, na semana passada, que não havia riscos à saúde.

Na quarta-feira (28), as autoridades de Sharjah também decidiram fechar todas as praias, por medida de precaução.

A série de ataques à embarcações comerciais, ocorrida desde o início do conflito entre os EUA/Israel e o Irã, intensificou os receios quanto aos impactos ambientais dessas hostilidades.

O incidente na costa dos Emirados Árabes Unidos também levanta questões sobre os efeitos de vazamentos de petróleo em estações de dessalinização — instalações que se concentram ao longo da costa emiradense e que, assim como em outros países do Golfo, são fundamentais para o abastecimento de água.

Nos Emirados Árabes Unidos, a água dessalinizada representa mais de 80% da água potável disponível. Entre as principais unidades, destacam-se a do porto industrial de Jebel Ali, em Dubai, e a de Taweelah, situada entre Abu Dhabi e Dubai.

No início deste ano, estações de dessalinização na região do Golfo já haviam sido alvo de ataques diretos no contexto do conflito.

A empresa de inteligência marítima Windward informou, no domingo, que o vazamento ameaçava a captação de água do mar da estação de dessalinização de Naqa’a, localizada na divisa entre Umm Al Quwain e Ras Al Khaimah.

Imagens verificadas pela Reuters mostraram que a mancha de petróleo atingiu um ponto em Ras Al Khaimah, a cerca de 2 km da referida estação.

Especialistas em recursos hídricos afirmaram à Reuters que é difícil avaliar o impacto potencial nas estações de dessalinização sem mais informações sobre a extensão do vazamento. Até o momento, os Emirados Árabes Unidos não anunciaram a paralisação de nenhuma dessas unidades.

O Ministério de Mudanças Climáticas e Meio Ambiente dos Emirados Árabes Unidos, o Gabinete de Mídia de Ras Al Khaimah e a estação de dessalinização de Naqa’a não responderam, de imediato, aos pedidos de comentário.

Qual é o nível de risco deste vazamento?

Qualquer vazamento de petróleo tem o potencial de impactar o meio ambiente, mas a extensão dos danos depende do tipo de petróleo e do volume, afirmou Simon Boxall, professor sênior da Universidade de Southampton.

A tecnologia de satélite pode ajudar a identificar manchas de petróleo que flutuam na superfície do mar, mas não indica a espessura dessa camada, explicou ele.

“O petróleo bruto, em particular, é um produto natural. Por isso, ele acaba se decompondo no ambiente marinho — especialmente em águas quentes, como as do Golfo — em questão de poucas semanas”, disse.

“Um vazamento mais espesso contém, naturalmente, uma quantidade maior de petróleo. Quando ele atinge as praias ou o ambiente marinho — seja no mar, no leito oceânico ou na costa —, tem o potencial de causar danos mais graves. Ele acabará se decompondo, mas isso leva tempo.”

Para a vida selvagem, pode ser fatal.

O petróleo bruto na água destrói a capacidade das aves de repelir a água e pode prejudicar sua habilidade de voar. Outros animais, como tartarugas marinhas e golfinhos, podem confundir o petróleo com alimento e acabar inalando a substância; já os peixes podem sofrer danos em seus órgãos e ovos, informou a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA).

Qual é a ameaça potencial para as estações de dessalinização?

As estações precisam ser desativadas assim que o petróleo se aproxima, a fim de evitar a contaminação, explicou Boxall.

Nidal Hilal, diretor do Centro de Pesquisa em Água da Universidade de Nova York em Abu Dhabi, afirmou que vazamentos de petróleo podem representar uma ameaça às estações de dessalinização, mesmo que o óleo não chegue fisicamente às instalações. A principal vulnerabilidade reside na captação de água do mar, por onde a água bruta é trazida para dentro da unidade para ser tratada.

Vista panorâmica dos tubos e sistemas de bombeamento da usina de dessalinização • Foto de Clea Rekhou, para o The Washington Post via Getty Images

“Para os Emirados Árabes Unidos, onde a dessalinização é um pilar fundamental da segurança hídrica — garantindo o abastecimento de água potável —, uma preocupação central é se o petróleo pode atingir os pontos de captação e comprometer o processo de tratamento”, disse ele à Reuters.

É importante distinguir entre uma ameaça à qualidade da água, a paralisação temporária de uma estação e danos físicos reais às instalações, ressaltou.

O que pode ser feito para evitar danos e quanto tempo levam os reparos?

A estratégia mais eficaz consiste em estabelecer várias camadas de proteção, em vez de depender de uma única medida.

“No caso deste incidente atual, as prioridades devem ser impedir que o petróleo chegue aos pontos de captação das estações, proteger os equipamentos de tratamento e manter um fornecimento seguro e confiável de água potável”, afirmou Hilal.

De modo geral, o tempo de recuperação depende de a água do mar contaminada ter entrado ou não na estação, e se o incidente causou incrustações persistentes ou danos aos equipamentos, explicou ele. Outros fatores que também influenciam incluem o projeto da estação, bem como o tipo e a quantidade de petróleo envolvidos.

Já ocorreram incidentes semelhantes no passado?

Estudos técnicos e episódios anteriores demonstraram que a contaminação por petróleo pode interromper as operações de dessalinização e até mesmo danificar os equipamentos de tratamento, observou Hilal.

Um grande vazamento ocorrido em 1991, durante a Guerra do Golfo — um dos maiores da história —, levou à paralisação de várias estações de dessalinização na Arábia Saudita e no Kuwait, além de causar uma extensa contaminação da costa.

“Décadas depois, ainda enfrentamos problemas de poluição decorrentes daquele incidente específico”, disse Boxall.

No entanto, ele ressaltou que aquele vazamento, assim como o ocorrido no Golfo do México em 2010, foram de proporções muito maiores, observando que o vazamento nos Emirados Árabes Unidos não atingiu “nada daquela magnitude”.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por tomasbraga.

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