Em meio a um cenário de alta volatilidade nos mercados financeiros e crescente incerteza política e econômica, investidores brasileiros de grande patrimônio têm buscado alternativas de alocação de capital fora do Brasil e, em alguns casos, a mudança de domicílio fiscal para outros países.
A análise é de Wilson Barcellos, CEO da Azimut Brasil, que atua na gestão de grandes fortunas. Ele participou do programa É Negócio, da CNN Brasil.
Volatilidade e comportamento dos investidores
Barcellos avalia que a reação dos clientes diante da turbulência atual é esperada e natural. “Os clientes são humanos e a humanidade tem a incerteza e o medo como característica de proteção da sua própria espécie”, afirmou.
Segundo ele, momentos de grande volatilidade provocam alterações drásticas nos preços dos ativos, e o movimento observado recentemente no Brasil não é inédito na história do país. “É preciso entender, respeitar e ter cautela nos movimentos futuros”, destacou.
Para o executivo, a cautela deve prevalecer sobre decisões precipitadas. Ele alerta que não se deve tomar decisões de investimento simplesmente porque determinados ativos parecem mais baratos, mas sim compreender quais mudanças estruturais estão de fato ocorrendo. “Não seguir preços porque eles estão 10% teoricamente mais baratos, mas sim entender qual é a estrutura que mudou de fato”, explicou.
Brasil concentra investimentos em renda fixa
Barcellos chama atenção para uma característica marcante do mercado brasileiro: a concentração excessiva em renda fixa. Segundo ele, o Brasil representa apenas 2% do PIB mundial, e sua bolsa de valores corresponde a menos de 1% do mercado acionário global.
Apesar disso, entre 98% e 99% dos investimentos realizados no país são direcionados à renda fixa, fenômeno impulsionado pelas elevadas taxas de juros. “Taxa de juros muito elevada atrai os recursos para renda fixa, um ativo que teoricamente teria baixo risco, mas não é assim”, pontuou.
Wilson ressalta que taxas de juros reais muito elevadas, ou seja, acima da inflação, são um sinal de problemas na saúde financeira de qualquer país.
Esse desequilíbrio, segundo ele, se reflete tanto nos preços das bolsas quanto no câmbio, e não é uma característica exclusiva do Brasil, mas também de outras economias ao redor do mundo.
Destinos preferidos para diversificação e expatriação
Entre os clientes da gestora, cujo patrimônio mínimo gira em torno de R$ 20 milhões, a busca por diversificação internacional e por mudança de domicílio fiscal tem crescido. Barcellos menciona que a Azimut, grupo ao qual está vinculado, administra globalmente cerca de um trilhão em ativos sob gestão, o que permite aos clientes brasileiros acessar uma diversificação global eficiente.
Quanto aos destinos de expatriação, Barcellosn aponta cinco regiões que têm absorvido esse movimento. O Oriente Médio, que não era um destino tradicional, passou a atrair brasileiros tanto por oportunidades de negócios quanto por vínculos familiares.
Na Europa, Suíça, Mônaco e Luxemburgo se destacam dentro das operações da gestora, além da Itália, que atualmente oferece condições especiais para investidores estrangeiros que desejam estabelecer residência no país.
Os Estados Unidos seguem como destino relevante, com recursos lastreados em dólar.
Na América do Sul, Uruguai mantém sua posição tradicional, enquanto o Paraguai tem se destacado com benefícios fiscais que atraem tanto pessoas físicas quanto empresas. “O Paraguai hoje é muito diferente do que era há 10, 15 anos atrás”, afirmou o empresário.
Sobre a alocação em títulos americanos, Barcellos observa uma mudança relevante: há dez anos, 72% dos Treasuries estavam nas mãos de holdings oficiais, bancos centrais e fundos soberanos.
Em 2025, esse percentual caiu para 42%, indicando uma diversificação global crescente por parte desses grandes investidores institucionais, com maior interesse em ouro e em ativos distribuídos geograficamente pelo mundo.
É Negócio
O programa É Negócio é uma parceira do NeoFeed com a CNN Brasil, Carlos Sambrana entrevista os executivos e líderes das maiores companhias do Brasil. Acompanhe os episódios inéditos, todos os domingos, às 20h45 na CNN Brasil, com reprise desta entrevista, na próxima segunda-feira (02.11), às 19h30 no CNN Money.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por afonsobenites.
