As autoridades francesas prometeram uma presença policial “massiva” para os protestos planejados para sábado (24) e impuseram toques de recolher localizados pelo segundo dia consecutivo, enquanto o país lida com as consequências dos piores distúrbios vistos em anos.
As medidas ocorrem após protestos relacionados à educação e ao custo de vida terem se transformado, no fim de semana, em uma onda de violência letal por todo o país — cenário que desencadeou uma troca de acusações no campo político interno e ameaça se espalhar para países vizinhos na Europa.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu afirmou que os “toques de recolher pontuais” ajudaram a manter a calma durante a noite de segunda (19) para terça-feira (20). Ele admitiu que os serviços de inteligência falharam ao identificar a gravidade da situação e reconheceu que as estratégias de segurança adotadas anteriormente eram estáticas demais.
A polícia de Paris anunciou um toque de recolher noturno, a partir das 23h de terça-feira, nas áreas mais afetadas — nos arredores da Place de la République e de Les Halles. Outras cidades, incluindo Bordeaux e Lille, também vão adotar a medida.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, declarou aos parlamentares na Assembleia Nacional que lamenta profundamente a violência ocorrida no fim de semana e assumiu parte da responsabilidade, ao mesmo tempo em que apontou o papel de opositores políticos e dos envolvidos nos atos de destruição.
“Assumo minha parcela de responsabilidade, mas não gostaria que esquecêssemos a responsabilidade significativa de um determinado campo político que não hesita em jogar lenha na fogueira, nem a responsabilidade dos próprios agitadores”, disse Nuñez.
A UNEF, principal sindicato estudantil da França, convocou novos protestos para sábado e afirmou que o movimento não cessará até que suas reivindicações sejam atendidas. A CGT, uma das maiores centrais sindicais do país, informou que participará das manifestações, defendendo que elas sejam pacíficas.
Os toques de recolher foram implementados após a prisão de mais de 2 mil pessoas no último fim de semana. O saldo inclui pelo menos duas mortes e relatos de ferimentos graves — incluindo duas pessoas que perderam as mãos.
A polícia utilizou gás lacrimogêneo contra as multidões e entrou em confronto com manifestantes encapuzados e vestidos de preto, que atearam fogo a diversos locais e invadiram milhares de lojas e prédios públicos.
Imagens registraram, inclusive, edifícios históricos em chamas.
As repercussões políticas podem ser significativas, aprofundando as divisões entre os principais partidos, a apenas seis meses da eleição para suceder o presidente francês, Emmanuel Macron.
A grande maioria dos manifestantes tem agido de forma pacífica, ressaltam autoridades e líderes políticos — mas o nível de confrontos e destruição abalou o país e provocou condenações contundentes, tanto por parte de líderes quanto da população.
“Aqueles que destruíram devem pagar”, disse Macron na noite de domingo. “Aqueles que saquearam devem arcar com as consequências. Aqueles que tentaram derrubar a República serão responsabilizados.”
Ele também prometeu realizar reuniões esta semana para discutir “propostas concretas” e ouvir as demandas dos manifestantes — mas muitos deles permanecem céticos.
Como tudo começou?
Tudo teve início em setembro, com uma greve de estudantes e professores em uma escola de ensino médio nos subúrbios de Paris, que exigiam mais funcionários e recursos. As reivindicações foram atendidas e a greve terminou — mas o episódio serviu como uma faísca que logo se espalhou por todo o país.
Estudantes de várias regiões, há muito frustrados com um sistema educacional superlotado e com falta de pessoal, iniciaram protestos que, por vezes, tornaram-se violentos. Uma resposta policial excessivamente dura alimentou a indignação popular e levou centenas de milhares de pessoas às ruas, especialmente após a circulação de vídeos que mostravam um policial utilizando uma técnica de imobilização proibida contra uma jovem.
Em poucas semanas, os protestos ganharam força e se transformaram em um movimento mais amplo, indo além dos estudantes e refletindo um descontentamento generalizado com o custo de vida, a suposta inação do governo, o crescente abismo de riqueza e um profundo desejo por mudanças sociais e políticas.
“Isso não pode continuar”, disse Maria Pallas, de 57 anos, integrante de um importante sindicato francês, em entrevista à CNN durante o protesto realizado no sábado, em Paris.
“Há a questão do custo de vida. Há o desemprego. Há uma série de problemas. Um jovem sai em busca de trabalho, prometem-lhe muita coisa, mas, no fim, ele acaba sem nada”, afirmou.
O que aconteceu neste fim de semana?
Mais de meio milhão de pessoas manifestaram-se por toda a França no sábado. Na maior parte, as manifestações transcorreram de forma pacífica. Contudo, em vários locais, os protestos descambaram para a violência, especialmente ao cair da noite.
Em Paris, grupos de jovens mascarados saquearam lojas e atearam fogo a estabelecimentos; em Lyon, manifestantes incendiaram o posto de turismo da cidade; na cidade de Limoges, no centro do país, a torre de uma prefeitura de 143 anos desabou em meio às chamas — um episódio que, para alguns, trouxe à tona lembranças dolorosas do incêndio da Catedral de Notre-Dame. Cerca de 3 mil lojas foram saqueadas em todo o país, informou o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, na terça-feira.
No domingo, também ocorreram focos isolados de protestos.
Ao final do fim de semana, Paris parecia uma “zona de guerra”, relatou um visitante à agência Reuters. Moradores de Paris e de outras cidades francesas ficaram chocados; alguns condenaram os saqueadores e vândalos, enquanto outros culparam as autoridades por não terem lidado com a crise mais cedo.
“É de partir o coração, é de partir o coração ver nossa cidade assim”, disse Farida, uma moradora de Marselha de 59 anos — que não revelou seu sobrenome —, segundo a Reuters. “Se todo protesto termina com vitrines quebradas e lojas destruídas, isso simplesmente não pode continuar — não pode continuar.”
Paola Formenti, uma moradora de Paris de 56 anos, expressou apoio à indignação “legítima” dos manifestantes, ao mesmo tempo em que condenou a violência.
O que vem a seguir, e será que os protestos vão se espalhar?
Os protestos e suas consequências podem influenciar as próximas eleições na França, na primavera do ano que vem.
A líder da direita, Marine Le Pen, que lidera as pesquisas de intenção de voto, afirmou neste fim de semana que “reivindicações sociais legítimas foram, mais uma vez, feitas reféns pela extrema-esquerda”. Seu rival da extrema-esquerda, Jean-Luc Mélenchon, defendeu repetidamente o direito dos estudantes de protestar.
Também ocorreram manifestações em outras partes da Europa no último fim de semana.
Na Bélgica, estudantes protestaram contra a situação do sistema educacional do país. Em Portugal, dezenas de milhares de pessoas marcharam em Lisboa no sábado para protestar contra o aumento do custo de vida e a crise habitacional no país.
Na Itália, Milão também registrou duas noites consecutivas de distúrbios neste fim de semana, resultando em prejuízos de cerca de 1 milhão de euros, segundo autoridades. Manifestantes atiraram pedras e saquearam supermercados; a polícia respondeu com gás lacrimogêneo e jatos d’água, efetuando 32 prisões.
O comércio só reabriu na terça-feira, após o governo anunciar uma série de medidas para lidar com os protestos violentos.
Entre elas, está a criação de um novo tipo penal: a “participação violenta em manifestação”. Os infratores podem enfrentar até cinco anos de prisão e multas de até 20 mil euros.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmou que a pena aumenta caso o manifestante esteja com o rosto coberto, cause ferimentos a terceiros ou se um grupo de manifestantes praticar atos de vandalismo contra o patrimônio.
Como parte das novas medidas, os manifestantes — ou os pais daqueles que forem menores de idade — deverão arcar com os custos de quaisquer danos pelos quais sejam responsáveis.
Além disso, menores de idade agora podem ser submetidos à detenção preventiva, medida anteriormente restrita a adultos. A primeira-ministra mencionou que uma criança de 11 anos estava entre os manifestantes mais jovens identificados em Milão.
O ministro da Justiça da Itália, Carlo Nordio, declarou que aqueles que utilizarem as redes sociais para organizar protestos violentos poderão enfrentar penas de até 12 anos de prisão.
Meloni informou ainda que 500 militares adicionais serão enviados a Milão até o final do ano para apoiar as forças de segurança. Também serão abertas novas vagas em centros de detenção juvenil para acomodar um número maior de jovens detidos.
Enquanto isso, na Albânia, estudantes têm saído às ruas há meses para protestar contra o que consideram ser corrupção governamental. As manifestações na capital, Tirana, tornaram-se violentas neste fim de semana; uma pessoa foi fotografada lançando um coquetel molotov contra a tropa de choque.
Autoridades em vários desses países condenaram a violência e pediram calma. Os protestos chamaram a atenção da Casa Branca: o vice-presidente JD Vance publicou na rede social X um vídeo da prefeitura de Limoges em chamas, atribuindo os distúrbios a uma política de imigração fracassada.
O presidente dos EUA, Donald Trump, também mencionou os protestos durante um comício na Geórgia neste fim de semana, brincando: “Vamos para a França, participar da revolução e gastar nossos US$ 5 mil lá” — referindo-se ao dividendo prometido caso os republicanos vençam as eleições de meio de mandato.
(Com informações de Pierre Bairin, Max Saltman, Joseph Ataman, Niamh Kennedy, Lisa Courbebaisse, Lucie Lepellec, Catherine Nicholls, Sana Noor Haq, James Legge, Sharon Braithwaite, Stefano Pozzebon, Issy Ronald, Melissa Bell, Sarah Hutter, Hira Humayun e Antonia Mortensen, da CNN)
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por lucasoliveira.
