O arquipélago de Coiba, formado por 38 ilhas e ilhotas a cerca de 25 quilômetros da costa oeste do Panamá, guarda uma particularidade que, quem sobrevoa, à primeira vista não percebe: durante mais de 80 anos, funcionou como prisão a céu aberto com relatos de trabalhos forçados, torturas e massacre. Pouco mais de 20 anos depois de ter sido fechado para esse tipo de atividade, o local está voltando a receber detentos.
Na área de aproximadamente 270 mil hectares, a partir de 1919, por decisão do governo de Belisario Porras (1856-1942), detentos trabalhavam sem remuneração em fazendas, ficando responsáveis pela criação de animais e cultivo de alimentos.
Maus tratos
Se por um lado o isolamento e a ocupação humana limitada ajudaram a manter a maioria dos ecossistemas quase intactos, colocando Coiba na lista de Patrimônio Mundial da Unesco, por outro fizeram com que o arquipélago acumulasse décadas de relatos de jornadas excessivas de trabalho, agressões, falta de comida e assistência médica suficientes – principalmente entre 1968 e 1989, período da ditadura militar no Panamá, com denúncias de violações aos Direitos Humanos.
Em 1998, por exemplo, quatro presos teriam sido decapitados por integrantes de um grupo rival ao tentarem fugir. O episódio acelerou a pressão social para o fechamento da prisão, em 2004, após 85 anos em funcionamento.
De lá para cá, cientistas vêm estudando a natureza local, como a recuperação da vegetação em áreas que foram utilizadas para atividades agrícolas, os recifes e as rotas migratórias de baleias e tubarões. O arquipélago abriga ainda espécies que desapareceram de outras regiões do Panamá, como a águia-de-crista e a arara-vermelha.
Prisão reativada
Após a fuga em massa de 195 detentos da prisão de La Joyita, em Pacora, o atual governo, justificando como um ato em prol da segurança nacional, determinou a transferência de 32 presos – 29 deles considerados de alto risco, em junho, e outros três em agosto – para a base aeronaval da ilha, reacendendo a preocupação de ambientalistas e pesquisadores.
O Centro de Defesa Ambiental do Panamá e dezenas de entidades argumentaram que, atualmente na legislação de proteção do parque, não há previsão de receber presos. Em resposta, o Ministério do Meio Ambiente argumenta que, como não foi necessário construir instalações, não houve impacto ambiental.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por Jonathan Pereira1.
