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Leia o que disse Lara Resende sobre acabar com os juros

Leia o que disse Lara Resende sobre acabar com os juros

Economista que participou da elaboração do Plano Real afirma que Banco Central mantém taxa em patamar alto “em nome de uma teoria anacrônica”

Antonio Scarpinetti/Unicamp -23.ago.2022

PODER360

2.nov.2026 (segunda-feira) – 9h49

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O economista André Lara Resende, que participou da elaboração do Plano Real, disse que o Banco Central mantém a taxa básica de juros em patamar alto “em nome de uma teoria anacrônica”. A declaração foi feita em um post de 25 de setembro no Substack.

Lara Resende declarou que o “cerne do problema fiscal está no serviço da dívida” e “todo o resto é secundário”.

O economista faz referência à diferença entre a taxa de crescimento da dívida bruta, de 12,7% ao ano, e a do Produto Interno Bruto nominal, de aproximadamente 7%.

Ele afirmou que a relação cresce “a uma taxa aproximadamente igual à diferença entre as duas”, em torno de 5,7% ao ano.

“Não é preciso muita elaboração para concluir que a situação é insustentável. A trajetória explosiva da dívida em relação ao PIB deve ser interrompida o quanto antes”, disse.

O economista afirmou que o aumento da relação dívida/PIB “tem um único motor”: a “absurda taxa de juros” fixada pelo BC.

“Todos estão de acordo: a taxa de juros é um problema. Inviabiliza o crédito para a produção e o consumo, provoca o endividamento insustentável das famílias e das empresas e desestimula o investimento produtivo”, declarou. “Além disso, dado que a dívida pública está nas mãos da parcela mais rica da população, agrava a concentração de renda e riqueza”, afirmou.

Lara Resende disse que o Brasil tem problemas sociais e institucionais graves. 

“Nenhum deles tem solução fácil. Exigem inteligência na formulação de propostas, bom senso na costura de apoio político e competência na implementação. A economia tem um problema básico: a extraordinariamente alta taxa básica de juros. Um problema que tem solução clara. Só é preciso vencer os preconceitos associados a uma teoria monetária e fiscal anacrônica”, declarou.

“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”, disse.

“Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros. Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica. E acuso todos os que, sabendo que juros absurdos inviabilizam o país, preferem o conforto do consenso ao incômodo da verdade”, afirmou.

De acordo com o economista, no longo prazo, a taxa de juros e a inflação estão positivamente correlacionadas, fato que considera “inescapável”. Já no curto prazo, “é possível que a redução do juro eleve a inflação, antes de levá-la a convergir para um nível mais baixo”.

Esse é o motivo, disse Lara Resende, pelo qual a proposta de reduzir o juro para reduzir a inflação “tem pouco apelo na prática”. 

Ele declarou: “A redução do juro vai efetivamente trazer a inflação para baixo, mas só depois de um repique da inflação no curto prazo, e é muito provável que o banqueiro central que tentar reduzir a inflação através da redução do juro perca o emprego antes de ver a inflação se reduzir”.

Segundo ele, o país “gasta mal”. Ele declarou: “Aloca recursos de forma irracional, patrimonialista, como no caso das emendas parlamentares e das vantagens pecuniárias do judiciário, e demagógica, como no caso das vinculações de receitas, isenções e subsídios de toda ordem. Ainda assim, tem apenas um pequeno deficit fiscal primário”.

Lara Resende apresentou uma proposta para reduzir a taxa básica de juros gradualmente ao longo de aproximadamente 12 meses, até atingir cerca de 7,5% ao ano. Defendeu a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que coordenaria as políticas fiscal e monetária e buscaria reequilibrar as contas públicas sem depender da manutenção de juros elevados.

JUROS

Lara Resende já havia criticado o alto patamar da Selic. Em artigo publicado no jornal Valor Econômico (leia, para assinantes) em fevereiro de 2023, disse que não havia razões para a piora das expectativas de analistas de mercado sobre a situação das contas públicas, com foco no chamado fiscalismo. 

“Independentemente dos dados e da realidade, decide-se que o risco fiscal é alto”, declarou.

“Quero que o leitor se pergunte por que, mesmo diante de resultados muito mais favoráveis que o esperado, os analistas e a mídia redobram sua histeria em relação ao ‘risco fiscal’ e clamam por juros ainda mais altos”, disse na época.

Lara Resende é um dos autores de um artigo publicado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais em agosto de 2022. Gabriel Galípolo, hoje presidente do BC, também assina o artigo “Diretrizes de políticas públicas para 2023: elementos para uma estratégia de retomada do crescimento sustentável e inclusão social” (leia a íntegra – 275 kB).

Na avaliação dos autores do artigo, havia excesso de importância na dependência do equilíbrio fiscal para a eficiência dos governos.

“A expressão prática da noção do Estado e seus ocupantes como apenas um peso morto, um impeditivo à produtividade e ao bem-estar, é a hipervalorização da necessidade de equilíbrio fiscal”, diz o texto. “É preciso ter claro que não existe sociedade organizada e economia de mercado capitalista sem Estado”, afirmam.

Sobre a Selic, os autores declararam que alta dos juros para reduzir a inflação é algo indicado como potencialmente prejudicial ao crescimento. 

“Quando associada a um aumento do deficit primário do governo, a um aumento das despesas não-financeiras, a elevação da taxa básica pode ser contraproducente, pois desacelera a economia e simultaneamente eleva a despesa financeira do governo”, diz o texto.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: Poder 360 por Poder360 · PODER360.

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