InícioPolíticaCalor mata mais por doenças respiratórias do que frio, indica estudo

Calor mata mais por doenças respiratórias do que frio, indica estudo

Calor mata mais por doenças respiratórias do que frio, indica estudo

Pesquisa analisou mais de 1 milhão de mortes e estima cerca de 66.000 por condições respiratórias associadas ao calor

Paulo Pinto/Agencia Brasil – 27.dez.2025

Agência Einstein

2.nov.2026 (segunda-feira) – 5h40

Priorize o Poder no Google

A cada ano, cerca de 6.000 brasileiros morrem por doenças respiratórias associadas à temperaturas extremas. Ao contrário do que o senso comum imagina, o maior responsável não é o frio, mas o calor. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas, publicado na revista PLOS Climate.

A equipe analisou mais de 1 milhão de óbitos registrados de 2010 a 2020 em 646 municípios brasileiros. Ao todo, os pesquisadores estimam que cerca de 66.000 mortes por doenças respiratórias registradas no período estiveram associadas a temperaturas fora da faixa considerada de menor risco para a população brasileira, de 22,4 °C. Desse total, 4,27% foram atribuídas ao calor e 1,81% ao frio.

Embora não seja possível dizer que o calor causou diretamente essas mortes, sabe-se que temperaturas altas afetam o sistema respiratório de diferentes maneiras. A desidratação resseca as vias aéreas e torna a secreção pulmonar mais espessa, dificultando sua eliminação. Isso aumenta a irritação das vias respiratórias e favorece infecções e crises de doenças como asma e DPOC, a doença pulmonar obstrutiva crônica. 

“Além disso, respiramos mais rapidamente para dissipar calor, o que aumenta o esforço do sistema respiratório”, diz o pneumologista Humberto Bogossian, do Einstein Hospital Israelita.

Outros fatores típicos dos períodos mais quentes potencializam esse risco, como a baixa umidade do ar, a poluição atmosférica, as queimadas e o aumento da concentração de ozônio. “As cidades também vêm perdendo áreas verdes e acumulando mais superfícies impermeáveis, formando ilhas de calor que agravam ainda mais esse cenário”, afirma Bogossian.

A predominância do calor surpreende porque contraria décadas de estudos produzidos principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde o frio costuma ser o principal fator climático associado à mortalidade respiratória. “A gente importou essa expectativa, mas ela foi medida pelo clima deles. No Brasil, a história muda”, declara o pesquisador e médico de família Guilherme Coelho, 1º autor da pesquisa. 

“Encontramos a temperatura de menor risco em 22,4 °C. O detalhe é que, em aproximadamente 3/4 dos dias do ano, o país está acima desse ponto de conforto. Como a população passa muito mais tempo exposta ao calor, ele acaba acumulando mais mortes”, diz.

Em comparação com a temperatura considerada mais segura para a população, os dias de calor intenso elevaram o risco de morte em 43%, enquanto os de frio extremo aumentam esse risco em 29%. E um dos problemas, segundo Coelho, é que o Brasil ainda está pouco preparado para enfrentar temperaturas muito elevadas, tanto do ponto de vista da infraestrutura quanto da adaptação da população.

Na prática clínica, essa mudança já começa a ser percebida. Se anos atrás os agravamentos de doenças respiratórias ficavam concentrados principalmente durante os meses do outono e do inverno, hoje, eles aparecem de forma mais distribuída ao longo do ano. “Tenho observado um aumento das exacerbações respiratórias também na primavera e no verão, principalmente de DPOC e asma. Os invernos estão mais curtos e amenos, enquanto os períodos de calor têm sido mais intensos”, afirma o pneumologista.

DIFERENÇAS REGIONAIS

O estudo também revela diferenças importantes entre as regiões brasileiras. Enquanto o Norte apresentou a maior proporção de mortes respiratórias relacionadas ao calor (cerca de 12,5%), no Sul o frio ainda representa o principal fator climático associado a óbitos. 

Para Guilherme Coelho, isso mostra que não existe uma estratégia de prevenção capaz de atender a todo o país. “No Norte, o ponto de menor risco é de cerca de 32 °C; no Sul, de aproximadamente 23 °C. Cada região adaptou seu organismo ao clima em que vive. Por isso, políticas públicas padronizadas não funcionam. O Norte e o Nordeste precisam de planos específicos para enfrentar o calor, enquanto o Sul precisa de medidas voltadas ao frio”, declara.

A pesquisa chama atenção para um fenômeno conhecido como “paradoxo do frio”. Em Estados amazônicos, por exemplo, temperaturas próximas de 24 °C, que são consideradas agradáveis em boa parte do país, podem estar associadas ao aumento do risco de mortes respiratórias naquela região. 

“O problema não é o número absoluto no termômetro, mas sair da temperatura à qual a população está acostumada. Casas construídas para dissipar calor, pouca adaptação fisiológica ao frio e serviços de saúde pouco habituados a esses episódios ajudam a explicar esse fenômeno”, diz o pesquisador.

Os idosos aparecem como o grupo mais vulnerável: cerca de 75% das mortes respiratórias associadas às temperaturas extremas são registradas nessa faixa etária. Isso se dá porque o envelhecimento reduz a capacidade de regular a temperatura corporal, predispõe à desidratação e costuma vir acompanhado de doenças crônicas respiratórias e cardiovasculares.

Para reduzir os riscos durante ondas de calor, a recomendação é manter boa hidratação, evitar exposição ao sol nos horários mais quentes, usar roupas leves, umidificar os ambientes, manter o tratamento das doenças respiratórias e manter em dia vacinas como influenza, covid-19, pneumococo e VSR (vírus sincicial respiratório).

Este texto foi publicado originalmente pela Agência Einstein em 20 de outubro. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

o Poder360 integra o


Conteúdo reproduzido originalmente em: Poder 360 por Poder360 · Agência Einstein.

Veja mais

ültimas