O consumidor brasileiro está comendo de outro jeito, e a indústria corre para acompanhar. Em entrevista ao programa Valor de Marca desta semana, a diretora de marketing da Seara, Tannia Fukuda, descreveu como a empresa tenta transformar mudanças de hábito em preferência de marca.
Segundo ela, as canetas emagrecedoras empurraram a proteína para o centro do prato, a air fryer obrigou a reescrever receitas e a marmita deixou de ser estigma.
Há 13 anos na companhia, Tannia acompanhou o que chama de turnaround da marca – um processo estratégico e estrutural de reestruturação para reverter ou ampliar os focos de atuação de uma marca/empresa. A meta era fazer o consumidor perceber a Seara como “uma marca de alto valor”.
Hoje, quando os clientes são questionados sobre a marca, duas palavras aparecem primeiro, segundo a executiva: “qualidade” e “inovação”.
O movimento mais recente é o das canetas emagrecedoras. Tannia cita “números oficiais” segundo os quais 10% dos lares já têm algum usuário do medicamento. “Os impactos acabam sendo para a ingestão da família inteira”, afirma. “No final do dia, a proteína ganha o seu protagonismo.”
A linha Seara Protein, lançada em 2025 com três pratos prontos, foi desenvolvida com nutricionistas e médicos. Uma descoberta guiou o portfólio, conta a executiva: não adianta concentrar a meta proteica no jantar.
“O corpo humano tem um limite e uma tolerância por refeição”, diz. A empresa passou a trabalhar com uma porção de 20 a 40 gramas de proteína por refeição. Outra conclusão das pesquisas: “As pessoas não querem abrir mão do sabor, mas querem muito bater as suas metas de proteína.”
A diretora ainda compara o momento à pandemia, que acelerou o e-commerce de alimentos e bebidas. “Agora vem esse novo movimento das canetas emagrecedoras, e a gente imagina que vai existir uma nova readequação dessa ingestão”, diz.
A cozinha da air fryer
A air fryer é outro motor de inovação. “O micro-ondas demorou quase 50 anos para entrar nos lares brasileiros. A air fryer entrou nesses últimos cinco anos e hoje tem maior presença do que o próprio micro-ondas”, afirma.
A empresa ouviu de consumidores que eles iam “fazendo tentativa e erro até dar certo” ao adaptar congelados ao aparelho. A resposta foi uma linha pensada primeiro para a air fryer. A pizza foi desenhada para caber na bandeja do eletrodoméstico, e a lasanha ganhou embalagem própria.
Segundo Tannia, os dois produtos levaram a Seara à liderança nos mercados de pizza congelada e de prato pronto congelado. A linha já inclui pescados, aperitivos, frangos e suínos. Na mesma lógica, a empresa entrou recentemente no mercado de marmitas.
“As marmitas deixaram de ser algo muito das classes menos privilegiadas e se tornaram o dia a dia das pessoas. As pessoas querem comida de verdade, comida feita em casa, comida saudável”, ressalta.
Com juros e endividamento altos, o preço pesa na gôndola. Tannia, porém, defende a proposta de valor acima do desconto. “Quando a proposta de fato se confirma, o consumidor tem prazer em pagar mais por essa oferta”, afirma.
Para tirar o consumidor de uma marca habitual, ela resume a filosofia da casa: “Não existe marketing sem negócios e não existe negócios sem construção de marca”. A executiva também rebate a ideia de que o marketing é o primeiro a sofrer cortes.
“O marketing foi quem ajudou a viabilizar as escolhas de negócio da companhia”, diz. Na Seara, segundo ela, “construir marca é construir valor e conversão imediata”. A conversão rápida, explica, vem da presença das categorias nas casas.
Ela cita frango em 98% dos lares, margarina em 95% e linguiça em 80%. A empresa acompanha dois grupos de indicadores. De um lado, os de negócio, como volume, faturamento e giro na loja. Do outro, os de saúde de marca, como consideração e preferência nos lares.
Do Rock in Rio à gôndola
No campo das experiências, a aposta é a música. A Seara patrocina o Rock in Rio desde 2019 e está na quarta edição. “A música, assim como a comida, são agregadores”, diz Tannia. No último festival, a marca levou uma experiência de churrasco. Segundo a executiva, um em cada quatro produtos vendidos no evento foi de churrasco, e a Seara foi a marca mais comentada nas redes.
O trabalho começa antes do evento e termina no supermercado, quando o consumidor volta para reabastecer a sua geladeira. “Nesse momento, temos que ser a resposta”, afirma. Por isso o trade marketing, a equipe comercial e os varejistas trabalham de forma sincronizada.
Outras frentes seguem a mesma linha. Uma delas é a parceria com a Netflix em torno da série Bridgerton. Ela se apoia num dado da empresa: 90% de quem assiste a séries come enquanto assiste. Tannia brinca que a marca já está numa “última refeição”, o pós-jantar, que é o momento de maratonar.
Público por interesse, não por classe
A segmentação também mudou. “Não dá mais para codificar essas pessoas por classe social, por gênero, por idade”, diz. A Seara organiza o público por interesses, como música e esporte, e escolhe influenciadores e conteúdos para cada comunidade.
A divisão da verba entre TV, redes e eventos varia por categoria. Uma pesquisa recente mostrou que, no período do churrasco, o consumidor estava “mais offline do que online”. A inteligência artificial ajuda a mapear tendências, mas não substitui o julgamento, diz a executiva.
“A grande verdade é que a decisão ainda é do marketing.” Para separar tendência de modismo, ela olha para fora. Os Estados Unidos são, segundo ela, um grande reflexo do que virá ao Brasil. A Europa traz uma exigência maior com saudabilidade, e a Ásia, com praticidade e tecnologia.
A tendência que Tannia vê como permanente é a da indulgência. Na pandemia, as pessoas redescobriram a cozinha. Depois, buscaram equilíbrio, mas sem abrir mão do gosto. “O paladar não retrocede”, resume.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por marianatokura.
