A desigualdade no conhecimento sobre ferramentas de inteligência artificial se tornou uma nova dimensão da exclusão digital no Brasil. Embora a familiaridade dos brasileiros conectados ao ecossistema digital tenha aumentado, a diferença entre as classes sociais permanece significativa quando o assunto são as novas tecnologias.
É o que mostra a terceira edição do Índice Reglab de Confiança e Segurança na Economia Digital, com dados referentes ao terceiro trimestre de 2026.
O levantamento também aponta que os brasileiros confiam mais nas plataformas de redes sociais do que nos conteúdos publicados nelas.
Conhecimento sobre IA expõe desigualdade entre classes sociais
O conhecimento geral sobre o ecossistema digital avançou. No segundo trimestre, 63,3% dos brasileiros conectados declaravam conhecer todas as 26 plataformas avaliadas pelo estudo. No terceiro trimestre, a proporção chegou a 69,2%.
Mas o avanço foi diferente entre as classes econômicas. Na classe A, 83,6% dos entrevistados conhecem todas as plataformas analisadas, contra 62,8% nas classes D/E.
A disparidade fica ainda maior quando o assunto é inteligência artificial. Segundo o levantamento, 97,3% dos brasileiros da classe A conhecem ferramentas de IA, contra 85,4% nas classes D/E.
Quando o recorte considera o conhecimento das quatro principais ferramentas de IA avaliadas (ChatGPT, Gemini, Claude e Perplexity), a desigualdade é ainda maior: 92,7% dos entrevistados da classe A conhecem todas elas, enquanto a proporção cai para 69,2% nas classes D/E.
Ou seja, quase um terço dos brasileiros das classes D/E desconhecem as principais ferramentas de inteligência artificial.
Em outros setores, a diferença não é tão grande. É o caso das categorias de streaming e governo digital, em que o nível de conhecimento entre classes está próximo.
Entre as plataformas avaliadas, YouTube (99,9%), Gov.br (99,7%), Instagram (99,5%), Facebook (99,2%), iFood (99,1%) e Netflix (98,9%) estão entre as mais conhecidas pelos brasileiros no terceiro trimestre de 2026.
Entre as menos conhecidas do ranking, estão Perplexity (80,8%) e Claude (81,2%).
Marina Garrote, diretora de operações e pesquisa do Reglab, defende que é necessário “letramento tecnológico” para evitar que as classes mais baixas “fiquem para trás” no conhecimento sobre IA.
O conhecimento sobre ferramentas de inteligência artificial também cresceu na média da população conectada no geral: passou de 84,7% no primeiro trimestre deste ano para 89,5% no terceiro.
Conhecimento não significa confiança
A familiaridade, no entanto, não significa confiança. Segundo o estudo, pessoas que acabaram de conhecer uma ferramenta tendem a avaliá-la com mais cautela do que aquelas que já tinham familiaridade com ela.
A classe social continua sendo o fator que mais diferencia os brasileiros na confiança no ambiente digital, segundo o índice. A classe A registra o maior nível de confiança, seguida pela classe B, C e D/E.
- Classe A: 75,1 pontos;
- Classe B: 67,9 pontos;
- Classes C: 64,3 pontos;
- Classes D/E: 64,5 pontos.
O recorte por idade também apresenta mudanças. No primeiro trimestre de 2026, os brasileiros de 18 a 34 anos confiavam 7,1 pontos a mais em inteligência artificial do que aqueles com 45 anos ou mais. Mas a diferença está diminuindo: foi para 2,5 pontos no segundo trimestre e ficou em 2,6 pontos no terceiro.
A pesquisa aponta que a aproximação ocorreu tanto pelo aumento da confiança entre os mais velhos quanto por uma leve redução entre os mais jovens.
Redes sociais: plataforma, não conteúdo
Já na análise das redes sociais, a pesquisa apontou uma peculiaridade dos brasileiros: os usuários confiam nas plataformas, mas não nos conteúdos veiculados nelas.
Na segunda edição do índice, 63% dos entrevistados afirmavam confiar nas redes sociais, enquanto 55% confiavam nos conteúdos publicados nelas. Na terceira edição, os indicadores passaram a 73% e 72%, respectivamente.
O padrão contrasta com o observado nas demais categorias avaliadas, como streaming, inteligência artificial e governo digital, nas quais a confiança na plataforma e no conteúdo apresentam resultados praticamente equivalentes.
Segundo Thais Palanca, pesquisadora e uma das autoras do estudo, a natureza das redes sociais ajuda a explicar essa diferença. Isso porque os conteúdos são publicados sem uma curadoria editorail prévia.
“O problema não é o funcionamento da plataforma, mas a qualidade da informação. As regras de moderação e transparência precisam focar na qualidade do conteúdo que chega ao usuário”, avalia.
Confiança muda pouco ao longo do tempo
A estabilidade do índice de 2026 em relação às duas últimas edições mostra que a maioria dos entrevistados manteve a mesma percepção sobre as plataformas digitais em relação ao trimestre anterior.
Entre os entrevistados que demonstravam menor confiança nas plataformas digitais, 77% permaneceram com a mesma avaliação no terceiro trimestre. Entre aqueles que apresentavam os níveis mais altos de confiança, 70% mantiveram sua posição.
“A confiança no ambiente digital se parece mais com uma característica estável de cada pessoa do que com uma opinião que muda conforme o momento”, afirma o diretor-executivo do Reglab, Pedro Henrique Ramos.
Para o pesquisador, o resultado tem implicações para políticas públicas e para a comunicação das empresas. “Campanhas e episódios pontuais afetam pouco a confiança, porque ela é construída e perdida de forma lenta”, explica.
A continuidade dos resultados ao longo das três edições sugere que mudanças na percepção de segurança digital podem exigir ações persistentes, em vez de iniciativas isoladas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por vitoriagomez.
