Todos nós, em algum momento, já paramos para perceber o avanço da nossa própria idade. Tudo o que foi vivido sempre entra em conflito com o tempo que ainda teremos para viver. Esse questionamento mental e social pode levar a diferentes questionamentos sobre amores, família, trabalho, a proximidade da morte e o sentido da vida.
Mas um filósofo encontrou motivos para manter a chama acesa mesmo no alto de sua idade centenária. Edgar Morin encontrou na curiosidade pela vida os motivos mais importantes para manter sua paixão por projetos, objetivos e pela contemplação ao mundo. A existência de dúvidas, ambição e vínculos afetivos o motivava diariamente mesmo durante a velhice.
Quem foi Edgar Morin?
Nascido em 8 de julho de 1921, em Paris, participou da Resistência Francesa durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. A situação significou para ele uma passagem pessoal, partindo dos conceitos de sobrevivência para encontrar a disposição necessária para se arriscar por causas coletivas. Dali surgiu seus primeiros sentimentos de fraternidades e de esperança para construção de uma sociedade mais igualitária.
Se tornou um dos pensadores franceses mais populares ao unir conceitos de sociologia, filosofia, política, antropologia e ciências naturais. Sua trajetória intelectual durou cerca de oito décadas, onde desenvolveu o pensamento da complexidade e da conexão humana, por meio de sua série literária “O Método”. Sua formação foi baseada principalmente em obras de Beethoven, René Clair, Degas e Dostoiévski.
Infância traumática
Quando tinha apenas 10 anos, sua mãe faleceu durante uma viagem de trem e sua família tentou esconder o fato alegando que ela teria feito uma viagem. A verdade só foi descoberta no funeral, situação que o próprio filósofo definiu como “uma experiência de solidão absoluta e perda irreparável”, em entrevista ao Le Monde em 2022.
Apesar do ressentimento em relação ao seu pai, afirmou que herdou dele a sua alegria de viver. Ainda na infância, Morin desenvolveu um forte sentimento de que a existência humana é marcada pela tragédia e pela necessidade de amor e de fraternidade. Em sua solidão, encontrou refúgio na literatura, cinema, música e artes.
Foi então que passou a desenvolver uma maneira de lidar com a complexidade da vida, evitando explicações simplistas. Segundo ele, os fenômenos humanos precisam ser analisados por meio de suas múltiplas interpretações.
Sua opinião sobre vida e morte
Na mesma entrevista ao veículo francês, o pensador resumiu sua relação com a vida e a morte: “Enquanto eu for impulsionado pelas forças da curiosidade, do interesse, da amizade e do amor, não penso na morte”.
O conceito não descarta que o tempo da velhice é limitado, mas exalta uma consciência originada justamente dessa concepção. Ao invés de se concentrar somente no inevitável fim da vida, ele utilizava o tempo restante para aproveitar tudo que ainda o podia estimular, como relações pessoais, questionamentos e realização de projetos.
A reflexão de Morin mantêm um vínculo relevante entre o envelhecimento e a empolgação em se manter ativo com todas as possibilidades ainda existentes. Pela curiosidade, é possível se abrir para temas ainda pouco compreendidos e manter o interesse por acontecimentos cotidianos e pela relação humana, seja com pessoas já conhecidas ou novos amigos. E, justamente pela amizade, é possível preservar o diálogo e a memória compartilhada, conservando vínculos de carinho e amor que dão intensidade ao tempo disponível, mesmo que ele seja breve.
A estratégia não visa impedir o envelhecimento, mas aceitá-lo e evitar que todos os anos de vida tragam uma sensação de que não há mais nada de novo para ser aproveitado, sentido, pensado ou descoberto. O filósofo procurava compreender como fenômenos da sociedades se entrelaçam, percebendo as novas relações e respostas que podem surgir de questionamentos novos ou antigos.
Projetos e atividades para nunca desistir
Aos 100 anos, Morin admitia que pensava no desaparecimento do próprio “eu”, mas que afastava esses pensamentos por meio de “experiências místicas”, como apreciar uma uma música, uma paisagem, uma pessoa ou a natureza, deixando-se levar por seus mistérios e encantamentos.
Mesmo consciente do avanço de sua velhice, Morin seguia com projetos ativos, mostrando que sempre há tempo para criar, se relacionar e planejar. O futuro e o presente, na visão dele, se misturavam e se uniam em uma rede de possibilidades. Na vida cotidiana, por meio da redução de ritmo e respeito aos próprios limites, ele indicava pequenos tópicos para não cair no marasmo social:
- Aprender algo novo
- Cultivar amizades
- Criar pequenos projetos
- Novos interesses em rotinas antigas
Ao não tratar o seu tempo de vida restante apenas como contagem regressiva, Morin ensinou que estar vivo significava continuar disponível para surpresas, mesmo quando o passado já ocupa muito mais espaço do que o futuro disponível. Edgar Morin faleceu em 2026, com 104 anos, não deixando a história, mas fazendo parte dela.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por kilbermoreira.
