Algumas das inovações mais populares da ciência no século 21 estão sendo empregadas para solucionar o principal problema que acomete a fauna mundial: a extinção. Mas uma startup de biotecnologia quer ir além de prevenir novas espécies de serem extintas: o objetivo é trazer de volta à vida animais que já sumiram do mapa.
A Colossal Laboratories e Biosciences já conquistou espaço no noticiário científico ao prometer reproduzir, com edição genética e animais contemporâneos, novos espécimes do mamute-lanoso pré-histórico, do tigre-da-tasmânia, do lobo-terrível e do dodô africano.
Inspirada na franquia “Jurassic Park”, onde dinossauros são trazidos de volta à vida com bioengenharia, a Colossal tem valor estimado de US$ 10 bilhões após múltiplas rodadas de investimento e traz em seu conselho, além de cientistas, celebridades como Chris Hemsworth, George R. R. Martin, Joe Manganiello, Steve Aoki e Tom Brady.
O que foi o dodô e por que foi extinto?
Animal natural de uma ilha na costa leste da África, o dodô foi uma espécie de pombo gigante terrestre que viveu sem predadores naturais até a chegada de exploradores holandeses em 1598.
O pássaro virou alvo fácil dos humanos já que, ao longo de sua evolução, não desenvolveu o medo natural a espécies predadas. Sua carne não era considerada saborosa pelos colonizadores, mas ainda era visada para consumo.
A extinção veio quando os marinheiros começaram a trazer em seus navios animais como ratos, porcos, cães e macacos, que atacavam ninhos e devoravam os filhotes e ovos dos dodôs, além de competir pelos recursos da ilha.
A espécie, que só botava cerca de um ovo por ano, não conseguiu manter um ritmo de reprodução suficiente para sobreviver às novas ameaças. A data exata da extinção é controversa, com relato de avistamento em 2003; no entanto, menos de um século depois da chegada dos humanos à ilha Maurício, sua população já era praticamente nula.
Com criatividade, cuidado e pesquisa, o uso ético de tecnologias genéticas modernas pode ajudar a estabilizar os ecossistemas enquanto retira os animais e plantas do nosso planeta da lista de extinção.
Qual é o objetivo de trazer o dodô “de volta”?
A equipe responsável pela reconstrução do genoma do dodô acredita que os mesmos esforços para trazê-lo de volta também podem ajudar a manter vivas as espécies hoje ameaçadas.
“A de-extinção é um mecanismo de inovação diretamente aplicável à conservação”, diz Matt James, chefe de assuntos animais na Colossal em detalhamento do projeto no site oficial.
Um exemplo de animal que a empresa visa proteger é o pombo-rosado, ave natural da ilha Maurício em processo de extinção por destruição de seu habitat. A equipe afirma que seu trabalho de biotecnologia e sequenciamento genético pode aumentar a diversidade genética da espécie e, por consequência, suas chances de sobreviver na natureza.
O projeto também deseja atrair a atenção do público e de investidores através da história do dodô, um dos símbolos mais famosos da extinção e das ameaças humanas à biodiversidade.
Como seria feita a “desextinção”?
A base do experimento é modificar o genoma do animal vivo mais próximo do dodô até ter uma ave geneticamente idêntica à extinta. O processo descrito pela startup é a seguinte:
- Reconstruir o mapeamento genético do dodô com inteligência artificial, dados de outras aves e amostras do pássaro real conservadas em museus;
- Identificar qual pássaro vivo tem o genoma mais parecido com a reconstrução – neste caso, foi escolhido o pombo-de-nicobar;
- Coletar células germinativas do pombo-de-nicobar responsável por criar óvulos e espermatozoides;
- Editar o código genético destas células, “trocando” os genes responsáveis por desenvolver os traços do pombo-de-nicobar por genes que emularão as características do dodô;
- Transferir as células para uma ave hospedeira. Neste caso, o animal escolhido para a “barriga de aluguel” foi a galinha doméstica;
- A partir da reprodução das galinhas portadoras dos gametas modificados, geraria-se um filhote geneticamente idêntico ao dodô.
O processo estaria hoje na fase de coleta de células germinativas do pombo-de-nicobar. A Colossal prevê que as aves, “exintas há 350 anos”, estarão “provavelmente andando entre nós novamente no início da década de 2030”.
Projeto anterior causou polêmica
A tentativa de “de-extinguir” o lobo pré-histórico (dire wolf) estaria mais avançada, com animais geneticamente modificados reproduzidos a partir do lobo-cinzento. Os três filhotes resultantes, lobos de pelagem clara, tiveram seus uivos gravados e compartilhados pela Colossal no YouTube com o título: “os primeiros uivos de lobo-terrível em mais de 100 mil anos”.
O experimento foi recebido com grande repercussão pelo público geral e pela comunidade científica, que questionou a narrativa divulgada pela startup à imprensa.
Um grupo de cientistas da União Internacional para a Conservação da Natureza respondeu à notícia dizendo que “não há evidências de que os animais são fenotipicamente distintos do lobo-cinzento, ou fenotipicamente similares ao lobo pré-histórico”.
Em carta aberta, o grupo de 12 especialistas em canídeos ameaçados de extinção pede que a biotecnologia “não seja adotada como panacéia para a crise de biodiversidade atual”.
Sugerir que a extinção pode ser revertida com tecnologia pode subestimar a urgência de conservar espécies e ecossistemas existentes. Apoiar-se na ideia de que podemos “restaurar” espécies perdidas por edição genética tira o foco do objetivo mais crítico da conservação: proteger a biodiversidade e os habitats que hoje carregam a vida na terra.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por julianasilva.
