O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2026 ocorrerá nos dias 8 e 15 de novembro. A redação é uma parte importante dessa prova, que analisa a educação em todo o país, por isso é necessário ficar atento aos possíveis temas que podem ser exigidos no teste.
O ano foi marcado por grandes acontecimentos mundiais, como guerras, relações geopolíticas conflituosas, questões climáticas e, no Brasil, as eleições inflamadas e polarizadas.
À CNN Brasil, Renato Júdice de Andrade, diretor pedagógico do sistema de ensino COC, explica que muitos assuntos que estão em alta na sociedade, sobretudo as eleições, podem entrar no universo temático da redação, mas é necessário estar a par de vários temas de ordem social, científica, cultural ou política.
“É importante distinguir o acontecimento eleitoral de um problema relacionado à democracia. As eleições de 2026 constituem um evento; para se transformar em tema de redação, seria necessário um recorte que permitisse discutir causas, consequências, diferentes responsabilidades e uma proposta de intervenção”, afirma.
Para o diretor, é pouco provável que a proposta da redação seja centrada no pleito em si, em candidaturas ou no resultado das urnas.
“Seriam mais compatíveis com o perfil do exame temas como os desafios para o enfrentamento da desinformação política, a participação dos jovens na democracia, a sub-representação de determinados grupos, a violência política contra as mulheres, a polarização, a confiança nas instituições ou a influência das plataformas digitais na formação da opinião pública”, aponta.
Entre os temas que podem cair em relação às eleições estão as mudanças que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) fez em suas normas em relação ao uso de inteligência artificial, identificação de conteúdos sintéticos e enfrentamento de deepfakes e notícias falsas e descontextualizadas.
“Isso não significa que a redação tratará desse assunto, mas mostra que estamos diante de um problema público concreto, e não de mera especulação pedagógica”, diz ele.
Temas dos anos passados
O profissional relembra os temas de redação do Enem nos últimos anos: em 2022, a prova abordou a valorização de comunidades e povos tradicionais; em 2023, a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher; em 2024, a valorização da herança africana; e, em 2025, as perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira.
Renato explica que esses temas são atuais, mas não correspondem às manchetes que estavam em alta naquele momento. “O exame costuma se afastar um pouco do ruído cotidiano para enxergar um problema estrutural. Minha recomendação, portanto, é que o estudante acompanhe as eleições, mas estude sobretudo a democracia”, afirma.
Para o diretor, é importante compreender e estudar conceitos de cidadania, participação política, representação, liberdade de expressão, responsabilidade informacional e respeito à diversidade.
Quais temas quentes devem ser estudados?
O diretor Renato Júdice de Andrade afirma que os temas que geralmente são mais quentes não são, necessariamente, os temas mais prováveis de caírem na redação do Enem. “Não existe uma lista oficial de apostas, e o Enem não premia quem adivinha a pauta”, declara.
Os temas mais relevantes para a preparação são aqueles que conjugam atualidade, dimensão estrutural, impacto coletivo, interdisciplinaridade e possibilidade de intervenção. Dentro disso, é preciso se atentar a pelo menos cinco grandes eixos:
- Democracia, informação e cidadania digital: que envolvem assuntos como desinformação, deepfakes, polarização, participação política dos jovens, representatividade, confiança nas instituições e tensão entre liberdade de expressão e responsabilização;
- Proteção da infância e da adolescência no ambiente digital: foco em economia da atenção, exposição excessiva, cyberbullying, publicidade dirigida, exploração de dados pessoais, saúde mental e responsabilidade das plataformas;
- Adaptação climática e justiça ambiental: compreender como eventos extremos atingem de maneira desigual os territórios e as populações, analisando temas como segurança hídrica, moradia, planejamento urbano, produção de alimentos, migrações climáticas, saúde pública e transição energética;
- Trabalho, educação e inteligência artificial: discutir automação, economia de plataformas, formação profissional, inclusão produtiva dos jovens, novas competências e desigualdade de acesso à tecnologia;
- Direitos, inclusão, memória e pertencimento: enfrentamento ao racismo e à violência contra as mulheres, inclusão das pessoas com deficiência e neurodivergentes, direito à moradia, saúde mental, acesso efetivo à educação, valorização das culturas periféricas e tradicionais e preservação do patrimônio material e imaterial.
O diretor reflete que o bom candidato não estuda cada tema dentro de uma gaveta, ele aprende a enxergar conexões entre as gavetas. “A História, no Enem, raramente aparece como álbum de datas; ela aparece como explicação da realidade. Esses eixos são especialmente produtivos porque atravessam várias disciplinas. Clima também é economia e saúde; inteligência artificial também é ética e trabalho; cultura também é identidade e distribuição de poder”, afirma.
Temas debatidos atualmente
Entre os temas que foram debatidos dentro das escolas e cursos preparatórios nos últimos meses, Renato Júdice de Andrade destaca a proteção da infância no ambiente digital, a adaptação climática e a integridade da informação como possíveis assuntos da redação.
Sobre a proteção da infância no ambiente digital, pesa o fato de o Brasil ter aprovado, em 2025, a Lei nº 15.211, chamada Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, que entrou em vigor em março de 2026. Essa nova lei esclarece obrigações relacionadas à segurança, à privacidade, à publicidade, à aferição de idade e à prevenção de riscos nos serviços digitais utilizados pelo público infantojuvenil.
“Poderia ressignificar o debate em recortes como os desafios para garantir o desenvolvimento saudável de crianças em uma sociedade conectada, a responsabilidade das plataformas na proteção de usuários vulneráveis ou os impactos da economia da atenção sobre a infância”, reflete o diretor.
A partir desse fato, o estudante poderá abordar temas como direitos, desenvolvimento humano e responsabilidades compartilhadas entre Estado, família, escolas e empresas.
Em relação ao campo da adaptação climática, é possível usar como base da redação o relatório mais recente da Organização Meteorológica Mundial sobre a América Latina e o Caribe. Essas regiões atingiram calor recorde, secas persistentes, chuvas extremas, retração de geleiras e impactos sobre comunidades, sistemas alimentares e economias.
“Nesse caso, o recorte mais sofisticado não seria simplesmente ‘a importância de preservar o meio ambiente’. Poderia envolver os desafios para reduzir a vulnerabilidade climática nas cidades brasileiras, proteger populações expostas a eventos extremos ou garantir segurança hídrica e alimentar. A crise climática não distribui seus efeitos de maneira democrática: as populações que menos contribuíram para o problema frequentemente dispõem de menos recursos para se proteger dele”, explica Renato.
Em relação ao terceiro campo que pode ser abordado, está a confiança pública na informação, na ciência e nas instituições.
A pergunta que pode ser feita antes de desenvolver o texto é: como tomar decisões individuais e coletivas quando se torna cada vez mais difícil distinguir evidência, opinião e manipulação?
“Por isso, o estudante deve acompanhar o que aconteceu, mas também perguntar: que direito está em jogo, quem é mais afetado, quais são as causas históricas e que instituições possuem responsabilidade sobre esse problema?”, declara Renato.
Quais erros costumam acontecer na hora da redação
Sobre erros comuns de interpretação de candidatos na hora da prova, o que pode ocorrer é confundir o assunto amplo com o recorte específico solicitado pela proposta.
As recomendações do educador para não fugir do tema e zerar a nota são:
- Identificar o assunto central: sobre o que preciso escrever?
- Localizar o recorte: qual aspecto desse assunto foi solicitado?
- Reconhecer o contexto: em que espaço, grupo social ou realidade o problema deve ser analisado?
- Observar o comando: a proposta pede desafios, caminhos, impactos, perspectivas ou formas de valorização?
- Transformar o tema em uma pergunta: minha tese responde integralmente a essa pergunta?
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por paulocardoso12.
