Ser filho de um dos criminosos mais conhecidos do século 20 nunca impediu Mike Biggs, ex-integrante da “Turma do Balão Mágico”, de enxergar em Ronald Biggs (1929-2013) seu maior exemplo de vida. Embora reconheça a gravidade do crime cometido pelo pai, que participou do histórico assalto ao trem pagador inglês em 1963, o artista afirma que sempre soube separar o homem que conheceu dentro de casa daquele que estampava as manchetes dos jornais.
Mike lança, junto ao serviço de streaming Universal+, o documentário “Biggs by Biggs” nesta sexta-feira (6), no qual quer “desmistificar” a história do pai. Em entrevista à CNN Brasil, ele falou sobre a admiração que mantém pelo pai e explicou como lidou, desde a infância, com a diferença entre a figura paterna e a imagem pública do criminoso conhecido como o “ladrão do século”.
“Eu sempre falei uma coisa que até coloquei no documentário: eu não tenho nenhum orgulho do que meu pai fez. Mas eu tenho muito orgulho de quem ele foi, da pessoa que ele se tornou, das amizades que ele conseguiu construir e manter ao longo da vida”, afirmou.
A dualidade entre a imagem de Ronald na imprensa e a convivência familiar nunca representou um conflito para ele. Ele contou que, apesar da notoriedade internacional, o pai sempre foi transparente sobre o próprio passado.
“Eu nunca vi muito como uma contradição. Eu sempre tive muito orgulho da pessoa que ele foi. Então, para mim, eu via que, dentro de casa, meu pai era o meu pai, era o Ronnie, uma pessoa amada pelos seus amigos, um cara totalmente de paz, incapaz de machucar uma mosca”, comentou,
O artista destacou que Ronald nunca tentou justificar o assalto diante do filho e fez questão de ensiná-lo a reconhecer os próprios erros, mesmo diante das consequências que enfrentou.
“Meu pai sempre foi muito honesto em contar para mim que ele tinha cometido um erro na vida dele, que ele tinha que pagar por esse erro. Porém, a sentença foi muito alta, por isso ele fugiu. Mas sempre batendo nessa tecla de que o que ele fez foi errado”, explicou.
“Então eu pude crescer com essa bússola moral de saber que meu pai fez algo que era errado, que eu nunca podia me orgulhar disso.”
A relação com as próprias filhas
Hoje, também pai, Mike reconhece que a admiração que sentia por Ronald influencia a maneira como busca construir sua relação com as filhas. Ele, no entanto, considera impossível reproduzir a mesma dinâmica que viveu durante a infância.
“Eu gostaria, sim, seria lindo se minhas filhas tivessem a admiração que eu tive pelo meu pai. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que isso é uma coisa um pouco utópica, porque eu só vivi com meu pai. Eu não tinha um relacionamento com mãe, resto de família, não tinha primos, não tinha tios, etc. Era somente eu e ele”, relembrou.
Essa realidade contribuiu para que os dois desenvolvessem um vínculo particularmente intenso, algo que não espera repetir da mesma maneira com as filhas.
“Isso fez com que essa codependência nossa fosse muito, muito exacerbada. Já com as minhas filhas, eu sei que não vou conseguir ter esse tipo de relacionamento, porque as histórias são diferentes”, explicou.
“O sentido é ser feliz”
Ao relembrar os últimos anos de vida de Ronald, Mike também destacou o senso de humor que marcou a relação entre os dois, mesmo em momentos delicados.
“Eu tive a sorte de poder falar tudo para o meu pai, todas as mágoas que eu tinha dele, todas as tristezas, alegrias, o quanto eu amava meu pai”, contou.
Para Mike, a leveza com que os dois encaravam a vida é uma das principais lições que carrega até hoje e que também procura transmitir às filhas.
“Eu acho que o principal em todos esses momentos é você conseguir manter o senso de humor, é você conseguir lembrar que tem que olhar a vida com uma certa leveza e um sorriso, porque ela vai acabar, a vida acaba”, refletiu.
“Então o sentido é ser feliz. Enquanto minhas filhas estiverem felizes, eu também. Está tudo certo.”
Quem foi Ronald Biggs?
Ronald Biggs ficou mundialmente conhecido por sua participação no chamado “roubo do século”, realizado em 8 de agosto de 1963, no Reino Unido.
Na ocasião, um grupo de criminosos, liderado por Bruce Reynolds, interceptou um trem postal que seguia de Glasgow para Londres. Os assaltantes manipularam a sinalização ferroviária para interromper a viagem e conseguiram levar aproximadamente 2,6 milhões de libras esterlinas, uma fortuna para a época.
Biggs foi condenado a 30 anos de prisão por sua participação no crime, mas conseguiu escapar da penitenciária de Wandsworth, em Londres, em 1965, após cumprir apenas 15 meses da pena.
Depois de passar por diferentes países, chegou ao Brasil em 1970, onde viveu durante décadas e se tornou uma figura conhecida da cultura popular.
Foi no país que nasceu seu filho Mike Biggs, que alcançou a fama ainda na infância como integrante da Turma do Balão Mágico, grupo musical que vendeu cerca de 12 milhões de discos durante os anos 1980.
Confira o trailer de “Biggs By Biggs”
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por nicolybastos.
