Bem no meio do Oceano Pacífico, entre o Havaí e a Califórnia, uma vasta área de água tem mudado de cor nas últimas duas décadas, tornando-se significativamente mais azul e verde. Pode parecer convidativo, mas os cientistas descobriram que pode haver uma razão preocupante para isso: o aumento da poluição por plástico.
Esta parte do oceano é chamada de Grande Mancha de Lixo Plástico do Pacífico. É um turbilhão de lixo plástico composto por tudo, desde redes de pesca antigas até embalagens de alimentos e bebidas. As pessoas costumam pensar nisso como vastas ilhas de resíduos visíveis, mas, na realidade, grande parte é composta por minúsculos fragmentos chamados microplásticos, muitos deles pequenos demais para serem vistos a olho nu.
E é o aumento desses minúsculos pedaços de plástico que pode ser o responsável pela mudança na cor da água da Grande Mancha de Garagem do Pacífico, de acordo com um estudo publicado na quinta-feira no periódico Communications Earth & Environment por cientistas da Universidade de Bergen, na Noruega.
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A cor do oceano é um reflexo literal do que há nele — desde organismos microscópicos semelhantes a plantas, chamados fitoplâncton, até detritos marinhos. Mas havia uma “lacuna” na pesquisa sobre como os microplásticos poderiam afetar a cor do oceano, disse Dan Koestner, autor do estudo e cientista pesquisador de óptica oceânica.
Ele começou a fazer “smoothies” com resíduos plásticos e a testar o material usando luzes e lasers para ver como os microplásticos interagiam com a luz.
Com esses dados, o próximo passo foi descobrir quanto plástico seria necessário para que houvesse uma mudança de cor detectável por um satélite, disse Koestner. A Grande Mancha de Lixo do Pacífico, onde gigantescas correntes oceânicas rotativas aprisionam enormes quantidades de detritos plásticos, parecia ideal.
Os pesquisadores analisaram 20 anos de dados de satélite da área, entre 2002 e 2022, e descobriram um aumento significativo no brilho dos comprimentos de onda azul e verde dentro e ao redor da Grande Mancha de Lixo do Pacífico, em comparação com o oceano circundante. Isso provavelmente fez com que a água adquirisse uma coloração ciano, concluíram eles.
Em seguida, os pesquisadores realizaram simulações para entender as possíveis causas da mudança de cor e testaram se ela poderia ser devida a razões naturais, como um aumento ou diferenciação no fitoplâncton. Mas foi ao adicionarem plásticos que eles descobriram um grande aumento na probabilidade de a água adquirir a cor ciano observada por satélite.
“Conseguimos afirmar que temos esse espectro de luz específico, essa cor que os microplásticos tendem a produzir”, disse Shea Cheatham, autora do relatório e candidata a doutorado na Universidade de Bergen.
Ainda há trabalho a ser feito para comprovar que a cor observada nos dados de satélite “é causada direta e exclusivamente por plásticos”, disse Cheatham. O próximo passo é ir até a Grande Mancha de Lixo do Pacífico e fazer medições diretas — um processo complexo e caro.
Se as conclusões se provarem corretas, essa análise poderá ser aplicada a outras partes do oceano que se acredita terem altas concentrações de microplásticos, para ajudar a compreender melhor a dimensão do problema. “Não temos uma boa maneira de quantificar ou medir essas partículas de microplástico tão pequenas sem métodos trabalhosos”, disse Koestner.
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Cientistas estimam que até 13 milhões de toneladas métricas de plástico chegam ao oceano a cada ano, mas apenas uma fração disso é encontrada flutuando na superfície — cerca de 250 mil toneladas.
Essa disparidade é às vezes chamada de “paradoxo do plástico desaparecido”, e parte do problema pode ser a fragmentação do plástico em microplásticos minúsculos e difíceis de detectar. “Definitivamente, não temos informações suficientes sobre o destino do plástico”, disse Cheatham.
Impactos dos microplásticos
Os microplásticos podem causar danos generalizados. Podem ser ingeridos por animais marinhos e percorrer a cadeia alimentar, tendo sido encontrados até mesmo em frutos do mar que consumimos . Também podem transportar poluentes e interferir na capacidade do oceano de movimentar e armazenar carbono.
A capacidade de detectar plásticos usando satélites e drones aumentou consideravelmente na última década, mas os microplásticos representam um desafio porque são minúsculos e tendem a estar misturados com outros materiais, como fitoplâncton e detritos naturais, afirmou Richard Thompson, professor de biologia marinha da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, que não participou da pesquisa. “Detectar um sinal relacionado ao plástico é muito difícil”, disse ele.
É por isso que essas descobertas são importantes, acrescentou ele. “Se pudermos detectar mudanças remotamente por meio de satélites, será mais rápido e menos custoso do que contar os detritos pedaço por pedaço.”
Koestner espera que o estudo ajude a mostrar a dimensão do problema da poluição. Se “os microplásticos estão se acumulando a um nível que está realmente alterando a cor do oceano, isso é bastante alarmante”M
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por julianaspolini.
