Mulher afirma que ex-companheiro teria se aproximado por interesse financeiro; relato envolve disputas patrimoniais, medidas protetivas e um veículo, enquanto Rondônia acumula quase 60 mil registros de estelionato em três anos
Porto Velho, Rondônia – O que começou como um relacionamento amoroso terminou em separação, conflitos patrimoniais e suspeitas de exploração financeira para uma servidora pública aposentada, mãe de três filhos, residente em Porto Velho. A mulher afirma ter sido vítima de um possível golpe sentimental praticado por um ex-companheiro mais jovem, com quem chegou a se casar sob o regime de comunhão universal de bens.
Em depoimento apresentado ao Alô Rondônia, a aposentada relata que o homem, ligado à atividade musical e sem renda fixa conhecida por ela, teria se aproximado em um momento em que ela possuía estabilidade financeira, renda de aposentadoria e patrimônio próprio.
Segundo a mulher, a relação foi marcada por promessas de companheirismo, reconciliações, conflitos e decisões financeiras que, posteriormente, passaram a despertar suspeitas sobre as verdadeiras intenções do ex-marido.
O caso chama atenção para uma modalidade de possível violência patrimonial conhecida como estelionato sentimental, expressão utilizada para descrever situações em que vínculos afetivos são supostamente empregados para obter vantagens financeiras mediante fraude.
Embora o relato apresente indícios que merecem apuração, não foram disponibilizados elementos suficientes para concluir que o ex-companheiro tenha cometido estelionato. A existência de conflito patrimonial decorrente de um casamento também não significa, automaticamente, a prática de crime.
DIFERENÇA DE IDADE E CONDIÇÕES FINANCEIRAS MARCARAM O RELACIONAMENTO
De acordo com a aposentada, havia uma diferença de idade significativa entre ela e o então companheiro. Enquanto a mulher já havia construído sua trajetória profissional, com renda previdenciária e bens adquiridos ao longo da vida, o homem não apresentava, segundo ela, a mesma estabilidade econômica.
A diferença de idade não representa irregularidade nem indica, isoladamente, exploração financeira. No entanto, associada às alegações de dependência econômica e interesse sobre o patrimônio, tornou-se um dos pontos centrais das suspeitas relatadas pela mulher.
Ela conta que o ex-companheiro teria apresentado dificuldades financeiras e necessidades pessoais durante o relacionamento, despertando nela o desejo de ajudá-lo.
Com o passar do tempo, a aposentada afirma ter utilizado recursos próprios para auxiliar o homem em projetos relacionados à carreira musical, além de compartilhar aspectos importantes de sua vida financeira.
O casal oficializou a união sob o regime de comunhão universal de bens, modalidade de casamento em que, como regra, ocorre a comunicação do patrimônio dos cônjuges, observadas as exceções previstas em lei.
O regime matrimonial se tornou especialmente relevante após o término do relacionamento, diante de divergências sobre bens, direitos econômicos e responsabilidades financeiras.
ÁUDIO CITADO PELA APOSENTADA LEVANTOU SUSPEITAS DE INTERESSE PATRIMONIAL
Um dos episódios que mais marcaram a aposentada foi a descoberta de uma suposta conversa entre o então companheiro e uma pessoa de sua família.
Segundo a mulher, um áudio ao qual teve acesso indicaria que o relacionamento poderia ter sido incentivado por terceiros com o objetivo de obter benefícios patrimoniais.
No depoimento, ela afirma que a conversa mencionava a possibilidade de casamento e acesso aos bens que possuía.
O conteúdo integral do áudio não foi submetido à análise independente da reportagem. Dessa forma, não é possível atestar sua autenticidade, identificar o contexto completo da conversa ou confirmar as intenções atribuídas aos participantes.
Para a aposentada, contudo, o episódio foi decisivo para que passasse a interpretar acontecimentos anteriores como possíveis sinais de manipulação afetiva e financeira.
INVESTIMENTOS NA CARREIRA MUSICAL E CONFLITOS SOBRE DIREITOS FINANCEIROS
A mulher também relata que teria custeado despesas relacionadas ao registro de uma composição musical do então companheiro, com a expectativa de participar de eventuais resultados financeiros.
Segundo ela, a música despertou interesse comercial, mas os valores e direitos que esperava receber não teriam sido concretizados.
A aposentada afirma que as divergências envolvendo a composição ocorreram próximo ao período de separação, aumentando suas suspeitas sobre possíveis interesses econômicos.
Não foram apresentados à reportagem contratos de cessão de direitos autorais, comprovantes de pagamento ou documentos que permitam estabelecer a titularidade da composição e eventuais valores devidos.
A questão, portanto, permanece como uma alegação da entrevistada e depende de documentação específica para eventual esclarecimento.
MEDIDAS PROTETIVAS E RECONCILIAÇÕES FIZERAM PARTE DO HISTÓRICO DO CASAL
Outro ponto relatado envolve conflitos conjugais que, segundo a aposentada, resultaram em pedidos de medidas protetivas em três ocasiões.
A mulher afirma que houve afastamentos e posteriores reconciliações, motivadas por promessas de mudanças no comportamento do companheiro.
Conforme seu depoimento, os ciclos de separação e retorno dificultaram o encerramento definitivo da relação.
Ela afirma que o relacionamento terminou após novos desentendimentos e que o ex-marido deixou sua residência.
A existência, o conteúdo e a situação processual das medidas protetivas mencionadas ainda dependem de confirmação por documentos judiciais ou fontes oficiais. A reportagem preserva detalhes dos episódios para resguardar a privacidade dos envolvidos.
Especialistas em enfrentamento à violência doméstica reconhecem que situações de controle financeiro, dependência emocional e repetidas reconciliações podem dificultar a ruptura de relações prejudiciais. Entretanto, cada caso precisa ser avaliado conforme suas circunstâncias e provas.
CONTRATO SOBRE VEÍCULO INTEGRA DOCUMENTAÇÃO APRESENTADA
Entre os documentos encaminhados ao Alô Rondônia consta um instrumento particular, datado de 14 de maio de 2026, relativo à constituição de usufruto sobre um veículo.
O documento identifica uma pessoa como proprietária e outra como usufrutuária, prevendo usufruto vitalício e atribuindo ao usufrutuário responsabilidades de conservação e manutenção do automóvel. O instrumento apresenta assinaturas e indicações de reconhecimento de firmas.
A existência do documento é relevante para compreender as relações patrimoniais mencionadas, mas não comprova que tenha ocorrido apropriação indevida do veículo ou fraude na celebração do contrato.
Segundo a aposentada, após o fim do relacionamento, ela ficou sem o veículo que possuía e precisou adquirir outro automóvel para atender às suas necessidades diárias. A compra, conforme seu relato, exigiu a contratação de uma nova dívida, comprometendo parte de sua renda mensal com o pagamento das parcelas.
Ela sustenta que decisões tomadas durante o relacionamento provocaram consequências econômicas mesmo após a separação.
Os documentos disponíveis não permitem estabelecer a situação atual da propriedade dos veículos, a existência de dívida decorrente dessas operações ou eventual descumprimento contratual.
DOCUMENTOS DE IMÓVEL RURAL TAMBÉM PREOCUPAM A APOSENTADA
Além dos veículos e dos investimentos financeiros, a mulher afirma que o ex-companheiro ainda estaria em posse de documentos originais relacionados a uma propriedade rural.
A situação provoca preocupação diante da possibilidade de uso indevido da documentação.
A posse de um documento original, entretanto, não equivale à propriedade do imóvel nem autoriza automaticamente sua transferência. A situação jurídica depende de registros e eventuais instrumentos de representação ou disposição patrimonial.
A aposentada poderá buscar orientação jurídica para verificar a documentação, conferir a matrícula atualizada do imóvel e avaliar medidas de proteção patrimonial.
RONDÔNIA REGISTROU QUASE 60 MIL CASOS DE ESTELIONATO EM TRÊS ANOS
O relato da aposentada surge em um cenário de aumento das ocorrências de estelionato em Rondônia.
Entre 2023 e 2025, a Polícia Civil contabilizou 59.902 registros de estelionato no estado, conforme informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e divulgadas pelo Portal SGC em setembro de 2026.

Os números indicam crescimento de aproximadamente 48,4% entre 2023 e 2025.
Porto Velho concentra 36,8% das ocorrências registradas no período. Na sequência aparecem Ji-Paraná (8,4%), Vilhena (7,6%), Ariquemes (7%) e Cacoal (6,7%).
As fraudes praticadas pela internet também apresentaram avanço expressivo: passaram de 4.355 registros em 2023 para 7.824 em 2025, crescimento de 79,6%.
Os dados abrangem diferentes modalidades de estelionato e não permitem identificar quantos casos foram especificamente classificados como golpes sentimentais.
GOLPE DO AMOR TAMBÉM JÁ PROVOCOU PREJUÍZO DE R$ 45 MIL EM PORTO VELHO
Em outro episódio divulgado pelo g1 em julho de 2026, uma moradora de Porto Velho teria perdido aproximadamente R$ 45 mil em uma fraude afetiva.
Segundo a reportagem, um homem foi preso durante uma operação policial envolvendo Rondônia e Espírito Santo. O investigado teria utilizado falsos pretextos financeiros e posteriormente ameaçado divulgar imagens íntimas da vítima.
Embora esse episódio tenha características diferentes das alegações apresentadas pela aposentada, os dois relatos mostram como relações de confiança podem estar associadas a situações de prejuízo econômico, manipulação emocional e exposição da intimidade.
A existência de uma relação afetiva não impede a investigação de possíveis crimes patrimoniais, desde que haja elementos que indiquem fraude ou outras condutas previstas na legislação.
O QUE CARACTERIZA O ESTELIONATO SENTIMENTAL?
O termo estelionato sentimental é utilizado para situações em que uma pessoa, valendo-se de uma relação amorosa, supostamente engana o parceiro ou a parceira para obter benefícios financeiros indevidos.
A caracterização jurídica exige a análise de elementos como intenção fraudulenta, indução ou manutenção da vítima em erro, vantagem ilícita e prejuízo patrimonial.
Isso significa que nem toda ajuda financeira entre companheiros, transferência de bens ou divisão de despesas representa um golpe.
A OAB Rondônia tem alertado para os riscos de fraudes afetivas, especialmente quando a confiança emocional é utilizada para solicitar dinheiro ou obter vantagens econômicas.
Já a violência patrimonial, prevista na Lei Maria da Penha, pode envolver retenção, subtração ou controle de bens, valores e documentos da mulher, em contexto de violência doméstica e familiar.
COMO IDENTIFICAR SINAIS DE POSSÍVEL EXPLORAÇÃO FINANCEIRA EM UM RELACIONAMENTO
Algumas situações merecem atenção, principalmente quando passam a ocorrer de forma repetida:
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Pedidos frequentes de dinheiro acompanhados de histórias difíceis de comprovar.
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Pressão emocional para transferir veículos, imóveis ou outros bens.
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Insistência para assinar procurações, contratos ou documentos sem orientação jurídica independente.
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Promessas de investimentos, negócios ou rendimentos que não se concretizam.
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Tentativas de afastar a pessoa de familiares ou pessoas que possam questionar decisões financeiras.
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Ameaças, chantagens ou promessas recorrentes de reconciliação utilizadas para obter vantagens econômicas.
A presença de um ou mais desses comportamentos não confirma a ocorrência de crime, mas pode justificar maior cautela e a busca por orientação especializada.
O QUE FAZER AO SUSPEITAR DE UM GOLPE SENTIMENTAL?
Quem suspeita ter sofrido fraude ou violência patrimonial deve procurar apoio e preservar possíveis provas, incluindo mensagens, áudios originais, comprovantes de transferências, documentos de veículos, contratos e registros de movimentações financeiras.
É importante registrar boletim de ocorrência, procurar a Polícia Civil e buscar assistência jurídica para verificar eventuais direitos patrimoniais.
Em casos de transferências por Pix decorrentes de fraude, o Banco Central orienta a comunicação imediata ao banco e a solicitação do Mecanismo Especial de Devolução (MED). O pedido pode ser realizado em até 80 dias da transação, mas a recuperação do dinheiro não é garantida.
Mulheres em situação de violência doméstica também podem procurar atendimento especializado e solicitar medidas protetivas. Segundo o Ministério das Mulheres, essas medidas podem ser concedidas diante de risco à integridade física, psicológica, patrimonial, moral ou sexual.
O Ligue 180 oferece atendimento gratuito, 24 horas por dia, para orientações e denúncias de violência contra mulheres. Em emergências, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.
RELATO REFORÇA IMPORTÂNCIA DA PROTEÇÃO PATRIMONIAL
Atualmente divorciada, a aposentada afirma que busca reorganizar sua vida financeira e preservar os bens que conseguiu adquirir durante sua trajetória profissional.
Apesar dos conflitos relatados, ela afirma que permanece em sua residência e pretende evitar novas perdas patrimoniais.
A história chama atenção para a importância de manter documentação organizada, compreender os efeitos dos regimes de casamento e buscar orientação jurídica antes de tomar decisões que envolvam patrimônio.
O Alô Rondônia preserva a identidade da entrevistada e do ex-companheiro. As acusações reproduzidas nesta reportagem correspondem à versão apresentada pela mulher e não constituem conclusão sobre a ocorrência de crime. O espaço permanece aberto para manifestação do homem mencionado, respeitado o direito ao contraditório.
