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Apps de namoro estão em crise? Entenda possíveis causas

Procurar encontros ou relacionamentos em aplicativos de namoro é algo comum há muito tempo, mas essa tendência pode estar passando por uma mudança.

Em 2025, o app Bumble demitiu quase um terço da força de trabalho; no segundo trimestre de 2026, a receita e usuários do aplicativo caíram também.

Diversos fatores podem estar relacionados a uma possível mudança na forma que as pessoas estão se relacionando por meio da internet. Abordagens excessivas por parte dos homens, mensagens indesejadas, a necessidade de impor limites e a competitividade masculina podem estar ligadas a esse comportamento.

Uma pesquisa do Pew Research Center, de 2023, mostrou que 56% das americanas com menos de 50 anos que já utilizaram aplicativos de relacionamento receberam mensagens ou imagens sexuais não solicitadas. Outras 43% relataram insistência mesmo depois de demonstrar desinteresse. 

À CNN Brasil, Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo do Reglab, explica que a perda da confiança pode estar relacionada a essa queda no uso dos apps.

“Quando conhecer alguém passa a envolver tantas experiências desagradáveis, é natural que parte das mulheres procure alternativas. O problema dos aplicativos não é apenas encontrar pessoas compatíveis, mas criar ambientes nos quais elas consigam confiar umas nas outras”, declara.

Para Pedro Teberga, professor de Negócios Digitais da Faculdade Einstein, FGV, ESPM e Inteli, os aplicativos funcionam como um mercado de dois lados. Quando mulheres se frustram com a experiência, os demais usuários lidam com a perda do interesse de usar esse meio.

O modelo de negócio dessas empresas também enfrenta uma contradição importante: enquanto o usuário procura estabelecer uma conexão e eventualmente deixar o aplicativo, a plataforma depende de sua permanência e de seu engajamento para gerar receita.

“Isso não significa que as empresas desejem relacionamentos malsucedidos, mas aponta para um possível desalinhamento entre os indicadores de desempenho da plataforma e os objetivos de seus usuários”, explica Teberga.

Sobre o caso Bumble, o professor aponta que a plataforma precisou realizar mudanças devido a essa mudança de comportamento na forma de buscar relacionamentos.

O app perdeu cerca de 21% de seus usuários pagantes no período de doze meses encerrado no primeiro trimestre de 2026 e registrou uma redução de 15,2% na receita no segundo trimestre, em comparação com o mesmo período de 2025.

Além disso, houve a flexibilização de uma regra histórica de que apenas mulheres poderiam iniciar conversas. Agora, é possível que qualquer pessoa mande a primeira mensagem. Segundo Teberga, essa mudança evidencia a dificuldade dessas plataformas em equilibrar segurança, liberdade de interação e qualidade das conexões. 

A Geração Z é mais conservadora?

A forma que a atual geração decide se relacionar amorosamente também pode ter relação com a queda na popularidade dos apps de namoro.

Segundo Pedro Henrique Ramos, o Índice de Conservadorismo da Ipsos-Ipec mostra que o Brasil de 2026 está praticamente no mesmo patamar de 2016. Ele, no entanto, avalia que há uma transformação nas expectativas sobre os papéis de gênero, acompanhada de movimentos de reação a essas mudanças.  

Para Pedro Teberga, a tecnologia ampliou o acesso a potenciais parceiros, mas também transformou a maneira como as pessoas avaliam suas possibilidades de relacionamento.

Ele avalia que os aplicativos introduziram uma lógica semelhante à de um catálogo de produtos, em que cada perfil representa uma alternativa e sempre parece existir uma opção melhor a apenas um deslize de distância. 

Essa abundância de possibilidades pode provocar um investimento emocional menor em cada interação. “Quando boa parte das primeiras interações acontece por meio de telas, algumas pessoas podem ter menos oportunidades de praticar competências como lidar com rejeições, interpretar sinais não verbais e construir vínculos em situações presenciais”, reflete.

Facilidade do virtual pode ser um problema?

Conhecer alguém por meio de um aplicativo nas redes sociais pode ser uma forma rápida de fazer uma espécie de manutenção da vida afetiva e amorosa ao mesmo tempo que lida com o restante das obrigações que a rotina exige.

De acordo com a psicóloga e psicanalista Raquel Baldo, essa facilidade faz com que o contato seja otimizado, mas também seja responsável por um desconforto psíquico.

“As redes sociais, as mesmas que te facilitam o acesso, geram psiquicamente e neurologicamente uma ativação, uma pulsação de um desejo que nunca é atendido. Isso está ali nas cognições de sinapses neuronais”, aponta.

Ela explica: “Eu não paro nunca de ver, de buscar, de falar. Se eu te mando mensagem, eu quero uma resposta agora, ou vou falar com outra pessoa. Eu fico rolando a rede infinitamente. E esse movimento gera um desconforto emocional também”.

Baldo afirma que é comum se prender ao estresse e aos desgastes quando a rede social não atende a todas as necessidades de uma pessoa que só possui fotos da outra com quem ela conversa.

“Esse mesmo lugar de conforto, pela facilidade de acessar, gera um imenso desconforto, porque ele impede que eu tenha um tempo para sentir, me perceber, descansar, trocar dedicadamente ao outro. É tudo tão rápido que falta dedicação e isso gera desconforto emocional”, resume.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por paulocardoso12.

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