Governos de diferentes regiões estão reorganizando suas políticas agrícolas e industriais para reduzir a dependência externa de proteínas, em um movimento que pode alterar os fluxos internacionais de soja, rações, carnes e ingredientes alimentares. A tendência, que combina proteção da produção doméstica, investimento em tecnologia e controle sobre cadeias de abastecimento, transforma a proteína em um ativo estratégico de segurança nacional e não apenas em uma commodity negociada no mercado internacional.
A mudança tem implicações diretas para o Brasil. O país ocupa posição central no fornecimento mundial de soja e proteínas animais, mas sua competitividade exportadora passa a conviver com uma nova variável, a disposição de grandes compradores de investir para produzir internamente o que hoje importam.
O fenômeno é denominado “nacionalismo das proteínas” pelo Eurasia Group, que, em relatório publicado em setembro de 2026, diz que o risco não se limita à imposição de tarifas ou cotas. Envolve a possibilidade de mudanças estruturais na demanda, o surgimento de concorrentes subsidiados e a disputa pelo domínio de tecnologias de produção e processamento.
O relatório identifica a convergência entre fragmentação geopolítica, demanda crescente por proteínas e maior intervenção dos Estados na produção e no comércio de alimentos. No cenário considerado mais provável pela consultoria, países continuarão adotando medidas para proteger o abastecimento doméstico e ampliar sua autonomia produtiva, enquanto as restrições comerciais tendem a ganhar espaço.
China no centro da transformação
A China representa a transformação mais relevante para os exportadores agrícolas. Mas o movimento não é exclusivo de Pequim; os Estados Unidos procuram ampliar a produção de carne bovina; a União Europeia quer reduzir a dependência de proteínas vegetais importadas para alimentar seus rebanhos; e a Índia investe para diminuir a necessidade de comprar leguminosas de outros países. Ao mesmo tempo, economias como Dinamarca, Países Baixos, Coreia do Sul e Singapura tentam conquistar espaço na produção de proteínas alternativas.
Embora partam de condições distintas, essas iniciativas apontam para uma mesma direção, governos querem maior controle sobre a origem, a oferta e o custo das proteínas consumidas por suas populações e utilizadas por suas indústrias.
China mira autossuficiência e pode reduzir compras externas
O caso chinês concentra a principal ameaça potencial aos fornecedores tradicionais. Depois de se tornar a maior importadora mundial de carnes, laticínios e rações, a China procura reduzir sua exposição ao mercado internacional, aumentar a produtividade doméstica e desenvolver tecnologias que permitam substituir importações e, no longo prazo, conquistar mercados externos.
O 15º Plano Quinquenal chinês, para o período de 2026 a 2030, coloca a segurança alimentar entre as prioridades nacionais, próxima à defesa. A estratégia inclui o desenvolvimento de sementes geneticamente modificadas, a expansão das áreas cultivadas, o aumento da eficiência na produção de ração e o investimento em fermentação de precisão, agricultura celular, aminoácidos e biomanufatura.
O objetivo não é necessariamente eliminar as importações no curto prazo, mas diminuir a vulnerabilidade do país a fornecedores estrangeiros e às oscilações do comércio internacional. Em maio de 2026, uma análise da Reuters já apontava que os ganhos de produtividade e a redução da dependência de rações importadas poderiam provocar uma mudança estrutural na demanda chinesa por produtos agrícolas, com efeitos especialmente relevantes para Brasil e Estados Unidos.
Para o Brasil, a questão é particularmente sensível porque a China ocupa posição central nas exportações de soja e carne bovina. Se o país asiático conseguir produzir mais proteína animal com menor utilização de insumos importados, poderá reduzir a necessidade de comprar soja e farelo no exterior, mesmo que o consumo de carnes continue crescendo.
Há, porém, uma diferença entre reduzir a intensidade das importações e eliminá-las. A capacidade chinesa de substituir fornecedores dependerá da produtividade agrícola, da terra e água, dos custos de produção e da velocidade de adoção tecnológica. O relatório do Eurasia Group projeta queda nas compras chinesas de soja e rações a partir de 2027, mas não quantifica o impacto sobre os volumes exportados pelo Brasil.
A segunda frente de risco é a concorrência. Além de tentar produzir internamente o que hoje importa, a China pretende ampliar as exportações de carne de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos. Caso avance nessa estratégia, poderá disputar mercados com fornecedores tradicionais, apoiada por políticas industriais e investimentos estatais.
EUA protegem a pecuária, mas recorrem à importação para conter preços
Nos Estados Unidos, a soberania das proteínas aparece de outra forma: o governo procura recompor a produção doméstica de carne bovina, mas precisa considerar o efeito da oferta insuficiente sobre os preços pagos pelos consumidores.
O rebanho americano está em seu menor nível em 75 anos, segundo o relatório do Eurasia Group e o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). Para estimular a produção, o governo adotou medidas de apoio aos pecuaristas, como garantias de empréstimos, ampliação do acesso a pastagens e maior fiscalização sobre grandes frigoríficos.
Ao mesmo tempo, Washington ampliou o acesso de fornecedores estrangeiros ao mercado de carne bovina para tentar aliviar os preços internos. Em setembro de 2026, segundo o relatório, o governo aumentou para 300 mil toneladas as cotas de importação com isenção tarifária destinadas a países selecionados, tendo o Brasil como principal beneficiário.
A aparente contradição revela o dilema das políticas de soberania alimentar. Ampliar a produção doméstica é um objetivo de longo prazo, mas não resolve imediatamente uma restrição de oferta. Enquanto a capacidade produtiva não reage, importações podem ser necessárias para conter a inflação e garantir o abastecimento.
O episódio também mostra que a política comercial pode ser utilizada simultaneamente para atender a interesses domésticos e fortalecer relações diplomáticas. O governo americano ampliou benefícios comerciais à Argentina, por exemplo, em uma estratégia que o Eurasia Group associa à aproximação política entre Donald Trump e Javier Milei.
Para os exportadores brasileiros, isso significa que o acesso a mercados pode depender não apenas de preços e competitividade, mas também de decisões políticas, negociações bilaterais e necessidades de abastecimento dos países compradores.
União Europeia quer diminuir a dependência de soja importada
A União Europeia também passou a tratar o abastecimento de proteínas como uma questão de autonomia estratégica. Em julho de 2026, a Comissão Europeia apresentou um plano para aumentar a resiliência e a autonomia do sistema europeu de proteínas, com foco na diversificação da produção e na redução de dependências externas.
O objetivo é ampliar a produção europeia de proteínas vegetais, utilizadas tanto na alimentação humana quanto na fabricação de rações. O plano prevê incentivos à diversificação das culturas, investimentos em pesquisa e inovação e fortalecimento das cadeias de processamento.
A dependência de insumos importados é considerada uma vulnerabilidade porque expõe a produção pecuária europeia a oscilações de preços, interrupções logísticas e tensões geopolíticas. O problema não se limita à soja, fertilizantes e energia também são insumos críticos para o funcionamento da cadeia.
A Europa dispõe de limitações naturais e econômicas para ampliar determinadas culturas na mesma escala dos grandes exportadores das Américas. Para o Eurásia Group, a redução da dependência, portanto, exigirá mudanças graduais na produção, incentivos aos agricultores e desenvolvimento de fontes alternativas de proteína.
Para o Brasil, a consequência potencial é uma disputa mais intensa pelo mercado europeu de ingredientes para alimentação animal. Isso não significa que a União Europeia deixará de importar soja brasileira, mas que pretende ampliar as alternativas disponíveis e reduzir a exposição a um conjunto restrito de fornecedores.
Índia investe para substituir importações de leguminosas
A busca por autonomia também está presente na Índia, que lançou um programa de US$ 1,3 bilhão para alcançar a autossuficiência em leguminosas secas até dezembro de 2027. A iniciativa, prevista para o período de 2025 a 2030, procura reduzir a dependência de importações de países como Canadá e Austrália.
O exemplo mostra que a soberania das proteínas não se restringe à carne. Leguminosas, grãos ricos em proteínas e ingredientes utilizados na alimentação animal também são considerados estratégicos porque influenciam o custo das dietas, a segurança alimentar e a dependência comercial.
Em países populosos, a vulnerabilidade a preços internacionais elevados pode ter consequências econômicas e políticas importantes. Incentivar a produção doméstica torna-se, assim, uma forma de reduzir a exposição a choques externos, embora a substituição de importações dependa de produtividade, disponibilidade de terras, rentabilidade para os agricultores e condições climáticas.
A disputa tecnológica vai além da pecuária convencional
A corrida pela autonomia não se limita a produzir mais carne, leite ou ovos. Parte dos governos procura dominar tecnologias que possam alterar a estrutura futura do mercado de proteínas.
Países Baixos, Dinamarca, Reino Unido, Coreia do Sul e Singapura investem em pesquisa, desenvolvimento e produção de proteínas vegetais, ingredientes obtidos por fermentação e carne cultivada. A China também incorporou essas tecnologias à sua estratégia de segurança alimentar.
O interesse é econômico e geopolítico. O domínio de processos industriais, patentes, equipamentos e ingredientes pode criar novas fontes de receita e reduzir a dependência de cadeias tradicionais de produção animal.
O relatório, contudo, não prevê uma substituição rápida da pecuária convencional. Os custos de produção das proteínas alternativas continuam elevados, e o setor enfrenta obstáculos regulatórios e resistência de consumidores. Por isso, o Eurasia Group considera mais provável que as proteínas animais continuem predominantes até 2030.
A disputa tecnológica pode avançar mesmo sem uma transição acelerada do consumo. Países que desenvolverem capacidade industrial e regulatória poderão ocupar posições estratégicas no fornecimento de ingredientes e tecnologias, ainda que a carne convencional permaneça dominante.
Demanda crescente com canetas emagrecedoras
O nacionalismo das proteínas ganha força em um momento de aumento da demanda global. A popularização de dietas ricas em proteínas, o envelhecimento da população e a expansão das classes médias urbanas sustentam o consumo de carnes, laticínios, ovos e suplementos.
Os medicamentos para emagrecimento da classe GLP-1 também influenciam os hábitos alimentares. Como reduzem o apetite, levam profissionais de saúde a recomendar maior atenção à ingestão de proteínas para preservar a massa muscular.
Nos Estados Unidos, as diretrizes alimentares publicadas em 2026 elevaram a recomendação diária de consumo de proteínas para uma faixa de 1,2 a 1,6 grama por quilo de peso corporal, ante 0,8 grama anteriormente. A mudança reforça a presença do nutriente nas políticas públicas e pode influenciar outros mercados.
A expansão do consumo, entretanto, não garante crescimento proporcional das exportações dos países que hoje dominam a oferta. Uma parcela maior da demanda pode ser atendida por produção doméstica, enquanto governos estimulam substitutos, impõem restrições comerciais ou favorecem produtores nacionais.
O descompasso entre a velocidade das mudanças de consumo e o tempo necessário para ampliar a oferta também pode gerar volatilidade. A produção agrícola depende de ciclos biológicos, disponibilidade de insumos, clima e investimentos realizados com antecedência. Quando a demanda muda mais rapidamente, os preços podem reagir antes que a oferta consiga responder.
O cenário descrito pelo Eurasia Group combina essas pressões com guerras comerciais, custos voláteis de fertilizantes e energia e riscos climáticos. O resultado pode ser maior intervenção governamental justamente em um mercado que, até aqui, se apoiou fortemente na especialização internacional da produção.
Para o Brasil, diversificação e valor agregado ganham importância
A posição brasileira como grande produtor e exportador de soja e carnes oferece vantagens relevantes em um mundo que continuará precisando de proteínas. Mas a dependência de grandes mercados compradores também expõe o país a mudanças de política comercial e a estratégias de autossuficiência de seus parceiros.
O desafio é distinguir duas tendências. Uma é o protecionismo de curto prazo, que se manifesta por tarifas, cotas e barreiras regulatórias. Outra é a transformação estrutural da capacidade produtiva dos países importadores, que pode reduzir a demanda externa ao longo de vários anos.
A primeira exige negociação comercial, defesa de acesso a mercados e adaptação às regras sanitárias e técnicas. A segunda demanda uma estratégia de competitividade de longo prazo, com ganhos de produtividade, diversificação de destinos e ampliação do processamento doméstico.
O Eurasia Group recomenda aos exportadores de proteínas diversificar mercados, investir em produtos de maior valor agregado e participar da definição dos padrões comerciais. Para o Brasil, isso significa não depender exclusivamente do crescimento das compras chinesas nem pressupor que a atual divisão internacional da produção permanecerá inalterada.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por fernandapressinott.
